''Eu escuto uma voz e é essa voz que me obriga a fazer tudo isso''. Era o que Arthur Bispo do Rosário dizia ao se referir às peças que construía e empilhava compulsivamente num hospício do Rio de Janeiro, onde ficou internado entre 1939 e 1989.
Posteriormente, ao ser descoberto pelo ''lado de fora'', suas criações provocaram espanto sendo exaltadas como arte contemporânea de primeira linha. Comparado a Duchamp e Arman, Bispo foi vanguarda sem saber. Seu acervo inclui estandartes, montagens, instalações, fardões, barcos de madeira, fichários, faixas, panos, coleções de miniaturas e tabuleiros com peças de xadrez.
A enigmática saga desse sujeito é tema do livro ''Arthur Bispo do Rosário - A Poética do Delírio'', que a professora de Artes Visuais Marta Dantas lança amanhã, às 19 horas, na Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL, como parte da programação do ''Fotolink - Encontro Internacional da Imagem''. O livro é um desdobramento da tese de doutorado defendida pela autora em 2003 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara (SP).
Nascido em Japaratuba (SE), filho de negros católicos, Arthur Bispo do Rosário mudou-se para o Rio de Janeiro onde trabalhou como marinheiro, técnico da Light (empresa carioca de eletricidade), marceneiro e vigia. Em 1938, aos 27 anos, teve uma experiência místico-delirante que lhe custaria o internamento por 50 anos na colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio.
Diagnosticado como esquizofrênico-paranóide, ele afirmava ouvir vozes sagradas e se dizia um escravo da Virgem Maria. Viveu no manicômio até a morte, aos 78 anos. A primeira parte do livro traz informações biográficas combinadas a uma análise do arquétipo do aventureiro associada à simbologia da água.
A segunda parte investiga a experiência de Bispo com a morte, uma experiência trágica que resultou na transformação de sua vida e na criação de sua mitopoética. ''Não dá para compreender seu universo sem levar a sério que sua obra foi feita para o dia do Juízo Final. E é paradoxal que ela, ao mesmo tempo, tenha sido uma afirmação de vida'', salienta Marta.
Na terceira parte, a autora aborda as obras caracterizando-as em seu conjunto como uma ''estrutura simbólica complexa em que a imaginação delirante participa num esforço de transformar o caos em cosmo''. Segundo ela, ''embora a tendência seja associar as criações dele à arte contemporânea, vejo ali um barroquismo acentuado, com influências das religiões cristãs e afro-brasileiras''.
Marta assinala que Bispo não via sua tarefa como atividade artística, ''mas como uma obrigação ordenada pelos seus superiores que nada tinha a ver com questões estéticas ou com a busca do reconhecimento, sucesso ou glória, comuns aos artistas profissionais''. O último capítulo trata da obra mais famosa legada pelo personagem: o ''Manto da Apresentação'', um majestoso pano bordado com o qual ele pretendia apresentar-se a Deus, como representante dos homens.
Bispo acreditava que nosso mundo iria acabar e que ele iria governar o novo mundo. Daí seu impulso em catalogar todas as coisas que queria salvar e levar ao Todo-Poderoso. Sua matéria prima era o entulho rejeitado pela sociedade de consumo: sapatos, canecas, pentes, garrafas, pias, latas, volantes de carros, talheres, embalagens de produtos descartáveis, papelão, cobertores puídos, madeira arrancada das caixas de feira e dos cabos de vassouras, linha desfiada dos uniformes dos internos, botões, estatuetas de santos, brinquedos - tudo, enfim, o que foi jogado fora, perdido, esquecido ou desprezado.
Interessava-lhe coletar a multiplicidade das coisas fabricadas e das nomenclaturas que as acompanham, para depois ordená-las a partir de uma lógica desconcertante na qual se conjugava a lucidez e o delírio.
Serviço
- Lançamento do livro ''Arthur Bispo do Rosário - A Poética do Delírio'', de Marta Dantas
Quando - Amanhã, 19h, na Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL (Av. JK, 1973)
Mais informações - (43) 3322-6844

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