Poetas da era digital
Quando Elizeth Cardoso gravou o LP unicamente com músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, com a presença de João Gilberto ao violão, o selo Festa estava entrando para a história da bossa nova. Não fosse esse acontecimento, ainda assim a gravadora tricotava a sua história. Sob a direção de Irineu Garcia, os grandes poetas da época deixaram gravados seus poemas.
O produtor Paulinho Lima, dono do selo Luzes da Cidade, conta que quando menino ouviu muito esses discos. Daí a inspiração para o trabalho que vem realizando atualmente. Na verdade, assim que criou o selo tinha esse desejo, mas começou na linha dos discos de música, comuns. Bateu na barreira do corporativismo das grandes gravadoras e partiu para os poetas.
‘‘Achei que era tempo de resgatar um pouco isso’’, contou. Arregaçou as mangas, aproveitou os 300 anos de morte do poeta Gregório de Mattos (ocorrido em 1995) e produziu ‘‘Boca do Inferno’’, o primeiro disco da coleção ‘‘Poesia Falada’’. Os satíricos versos ganharam vida na voz da atriz baiana Nilda Spencer. Na contracapa, um texto de Jorge Amado.
O lançamento ocorreu no começo do ano, em seguida veio o segundo volume, ‘‘Antonio Cicero por Antonio Cicero’’. A idéia é justamente essa: colocar os clássicos na voz de grandes atores e os contemporâneos dizendo, eles próprios, seus poemas. A previsão inicial é de 15 títulos. ‘‘No momento estou envolvido com cinco ou seis projetos que estão andando. Espero até dezembro lançar mais dois discos: de Helena Kolody e Vinícius de Moraes’’, disse o produtor à Folha2.
Para gravar Vinícius (Paulinho Lima nunca diz ‘‘declamar’’) foi escolhida Odete Lara, grande amiga do Poetinha, que fora dos sets de filmagem, foi para um estúdio gravar com ele. Como a obra de Vinícius tem muito dele como homem, optou-se em buscar um outro flanco pouco explorado, ‘‘que uma atriz possa dizer’’ . Virá um segundo volume, esse sim, trazendo seu lado mais masculino.
‘‘Devo concluir o disco de Odete por estes dias. Estou fazendo um com o Jograis de São Paulo, dizendo Fernando Pessoa e há possibilidades de outro com Maria Fernanda dizendo os poemas de Cecília Meireles’’, contou o produtor.
Falar poemas é uma paixão que reside no íntimo de poetas e não-poetas. Os autores mesmo sendo mais - ou menos - tímidos, acabam sempre confessando que querem deixar o registro de viva voz.
Atores também querem entrar na dança. Fernanda Montenegro vai declamar sua amiga Hilda Hilst, projeto anotado para 1998. Rubens de Falco prepara material de Manuel Bandeira e Tônia Carrero faz parte da lista. Paulo Autran com certeza irá engrossar o elenco.
Os dois primeiros volumes da série deverão estar à venda nos próximos dias na rede de livrarias Curitiba. É pelo caminho alternativo que Paulinho Lima transita com seus discos. O mercado convencional é ‘‘selvagem’’, a única preocupação é o marketing. ‘‘Então o que se vende hoje? A bunda de Carla Peres’’, critica o produtor. Acreditando noutra faixa de público, ele vai produzindo a série da ‘‘Poesia Falada’’.
Está se dando bem. ‘‘Tenho conseguido vender pondo os discos em pequenas quantidades sob consignação. Nunca tive cheques sem fundos e em todos os lugares que expuseram eles foram vendidos. Não em quantidades alarmantes, mas surpreendentes sempre. Os lotes esgotaram’’, encerra satisfeito.

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