Poeta vacinado
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de maio de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Depois de passar seis anos à frente da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o poeta Affonso Romano de SantAnna agora só quer saber de cuidar de sua produção literária. Governo, nunca mais, fiquei com vacina para sempre, disse categórico, enquanto passeava entre os estandes da 1ª Feira Interamericana do Livro, realizada na semana passada, em Curitiba.
Eu toco a minha vida para a frente, como todos os outros escritores, fazendo o possível para que as coisas mudem, planeja. Sobre a realização do evento literário no Paraná, comentou que isto é um reflexo do que vem acontecendo em outras partes do Brasil. Não é mais só Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre. Fortaleza já realiza uma bela feira, Recife terá uma internacional e assim poderia citar mais uma dezena de outras.
Promoções em torno do livro e da leitura são necessárias porque o país é muito grande. Muito embora isto traga progresso editorial, o poeta observou que é preciso atentar para um lado tão ou mais importante, nem sempre lembrado nesses eventos: a formação de público.
Em acontecimentos semelhantes é comum centrarem-se as preocupações nas vendas, mas é vital a produção de leitores. Sugeri e os organizadores da Feira Interamericana adotaram, de começar um trabalho nas escolas, com meses de antecedência, através de contadores de história, que começassem a despertar as pessoas para a questão do livro.
Caminhando em direção ao leitor a Ediouro lançou na semana passada uma nova antologia de Affonso Romano de SantAnna, Epitáfio para o Século 20, ao preço de R$ 1,80. É o livro mais barato do Brasil. Sem dar tempo ao tempo, o escritor está terminando de escrever um volume de ensaios e espera pela publicação de um livro de crônicas.
Esta é uma época de se dedicar à literatura com um empenho que não conseguiu nos seis anos de Biblioteca Nacional. Estive muito afastado da minha própria escrita, lamenta Affonso SantAnna. Ele deixou o posto decepcionado com o governo de Fernando Henrique Cardoso.
Depois de anos de ditadura, de vacilo sobre a democracia, Sarney, Collor, havia expectativa de uma geração que ia chegar e fazer alguma coisa. E hoje estamos aí, uma série de escândalos, o governo tentando ocultar, jogando debaixo do tapete. Isso deixa a gente desacorçoado, desabafou. Em paz consigo mesmo, segue o lema que criou: A vida é viver e escrever.


