Prepare-se para se intoxicar, no bom sentido, com os versos de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). A 1 ano do centenário de nascimento do poeta, já é possível identificar aqui e ali uma grande movimentação em torno de sua obra.
Quem ligar a televisão hoje à noite, por exemplo, poderá assistir a uma edição do programa ''Espaço Aberto - Literatura'' (Globo News) dedicada exclusivamente ao autor de ''No Meio do Caminho'' com participação de vários artistas interpretando seus poemas e falando sobre sua importância.
O programa vai ao ar às 21h30 destacando a criação do ''Dia D'' pelo Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, que a partir deste 31 de outubro (data de aniversário de Drummond) institucionaliza a data como uma versão brasileira do ''Bloomday'', no qual, todo dia 16 de junho, cidades do mundo inteiro celebram o dia em que se passa o romance ''Ulysses'', do irlandês James Joyce.
Além da atração televisiva, o mercado editorial também se agita com a publicação de reedições e novos títulos. Uma das novidades é o volume ''Carlos Drummond de Andrade - Coleção Encontros'' reunindo 17 entrevistas concedidas pelo poeta ao longo de seis décadas, entre 1927 e 1987. O livro está previsto para chegar às prateleiras em novembro pela editora Azougue.
Entre os relançamentos estão os volumes de prosa ''Confissões de Minas'' (1944) e ''Passeios na Ilha'' (1952), além de ''Poesia Traduzida'', todos pela Cosac Naify, que ainda anunciou para o próximo ano uma edição crítica dos dez primeiros livros de poesia. É no próximo ano, também, que a Companhia das Letras dá início à reedição das obras completas do poeta coincidindo com o centenário e com a sua escolha como autor homenageado da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).
É tolice imaginar qual seria a reação de Drummond diante de tal celebração, embora se saiba sobre sua aversão a prêmios e ôba-ôbas congratulatórios. A fama de temperamento discreto e introvertido, aliás, foi bastante difundida e reforçada particularmente pela rejeição a ingressar na Academia Brasileira de Letras e pela irritação ao saber de uma articulação para indicá-lo ao Prêmio Nobel de Literatura em 1967.
Alheio à badalação da vida literária, ele preferia concentrar-se na escrita, à qual dedicou quase 60 anos de sua existência. Nascido em Itabira (MG), mudou-se posteriormente para o Rio de Janeiro, onde viveu seus últimos 25 anos de vida. Sua obra reúne poemas, crônicas, contos e cartas. É numerosa a coleção de textos memorialísticos em que desfila sua nostalgia pelo passado.
Lançou seu primeiro livro, ''Alguma Poesia'', em 1930. Tinha 28 anos. Ali incluiu o famoso ''Poemas das Sete Faces'' (''Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: vai Carlos! ser gauche na vida'' ) e o bem-humorado ''Quadrilha'' (''João amava Teresa / que amava Raimundo / que amava Maria / que amava Joaquim / que amava Lili / que não amava ninguém'').
Dois anos antes, já havia provocado alvoroço ao publicar o célebre ''No Meio do Caminho'' na Revista da Antropofagia, veículo criado por Oswald de Andrade na esteira da Semana de 22. Na ocasião, dividiu opiniões sendo elogiado pelos entusiastas dos modernistas e criticado pelos tradicionalistas.
Apesar da estreia impactante, nunca foi seguidor dos modismos vanguardistas que explodiam na época na Europa. ''Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno'', diria tempos depois. Drummond poetizou o cotidiano como poucos, levando ao extremo a simplicidade da linguagem para se aproximar do leitor. Tematizou a vida prosaica em tom lírico, dramático, erótico, irônico e às vezes até humorístico.
Dizia que nada era alheio à poesia, desde que o poeta fosse fundo nas coisas para extrair-lhes substância humana. Talvez por esse traço, tenha se tornado um dos autores mais populares, inclusive entre pessoas não iniciadas em literatura. Daí a incorporação, pela linguagem cotidiana, de referências a versos do poeta como a pergunta ''E agora, José?''.
Durante um período, sob influência da Segunda Guerra Mundial, ele fez poesia participante chegando a editar três números da revista do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi a época em que publicou o volume ''A Rosa do Povo'', cujo poema homônimo dedicou a Charles Chaplin. No entanto, muitos atribuem o melhor de sua trajetória à fase em que gestou os poemas de ''Claro Enigma'', considerado seu livro mais hermético.
Poeta lírico de expressão universal, Drummond revelou-se um observador cético do mundo apresentando-se ao leitor como alguém desconfiado que muito viu e viveu.
Serviço
Programa ''Espaço Aberto/ Literatura - Especial Carlos Drummond de Andrade''
Quando - hoje às 21h30
Onde - Globo News



CANÇÃO AMIGA

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

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