POESIAS REUNIDAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de setembro de 2001
Nelson Sato <br> De Londrina 
O poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes preparou uma recepção musical para quem for hoje, às 20 horas, à sessão de lançamento de seu livro ''Poemas Selecionados 1984-2001'' na Biblioteca Pública.
Ao lado da cantora, compositora e poeta Neuza Pinheiro, ele mostra um pouco do pocket show que tem apresentado em bares da cidade. O lançamento de sua primeira coletânea faz parte das comemorações dos 50 anos da Biblioteca. O volume, publicado pela Atrito Art Editorial, reúne poemas dos livros ''Solarium'' (Iluminuras, 1984), ''Visibilia'' (Sette Letras, 1997) e do ainda inédito ''Polivox'' (Azougue Editorial) previsto para sair da gráfica no próximo mês junto com um CD homônimo.
O livro inclui, quase com um apêndice, 17 poemas em inglês traduzidos pelo próprio autor e pelo poeta norte-americano Chris Daniels. Rodrigo, um dos mais festejados poetas da nova geração, foi um dos eleitos pelo crítico Ítalo Moriconi para compor a antologia ''Os 100 Melhores Poemas Brasileiros do Século'', lançada há pouco pela editora Objetiva. O texto selecionado, ''Stanzas in Meditation'', está presente também em sua própria coletânea, cuja publicação está inserida num projeto de formação de público-leitor em escolas de Londrina com o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
Através do projeto, batizado de ''Abracadapalavra'', o poeta irá realizar oficinas de poesia e criação textual entre estudantes do ciclo básico e fundamental, além de recitais em colégios e universidades. A seguir, confira trechos da entrevista em que ele fala de crítica e poesia contemporânea brasileira.
A coletânea reúne sua produção poética desde 1984 incluindo poemas dos livros ''Solarium'', ''Visibilia'' e do ainda inédito ''Polivox''. Que traços de evolução você destacaria em seu percurso?
O título do último livro resume bem minhas intenções poéticas. Acho que o poeta pode ser um site (ou sítio) para diversos procedimentos respondendo tanto aos apelos da cultura contemporânea, com sua estética fragmentária e seu excesso de informação, quanto à herança da tradição experimental brasileira e a outras poéticas. O ''Solarium'', meu primeiro livro, já apontava para essa multiplicidade mostrando meu interesse em dialogar com várias tradições e formas incluindo poéticas orientais, os poetas da linguagem norte-americanos, a poesia beat, a poesia brasileira, o surrelismo e até a poética medieval italiana. E se há poemas de maior fôlego neste livro, há poemas concisos em ''Visibilia''. Acho que o poeta deve exercitar várias dicções, experimentar. Não teria graça entrar no jogo impondo-se uma camisa-de-força, um maneirismo, como alguns poetas por aí que fazem um poema e repetem a fórmula o resto da vida.
Você já participou de várias leituras de poemas, está para lançar seu primeiro CD e é um admirador da poesia beat cujo potencial para ser lida em voz alta é bastante conhecido. Até que ponto seus poemas podem ser oralizados?
Uma parte de minha produção atende a essa dimensão, seja pela estrutura ou pelos temas, ganhando mais força quando saltam do papel e são lidos em voz alta. Alguns poemas de meu primeiro livro (Solarium), aliás, foram musicados por Bernardo Pellegrini, Neuza Pinheiro e Madan. Mas uma grande parte, particularmente os poemas de meu último livro (Polivox), prendem-se à dimensão da página, à leitura silenciosa.
Que traços vocês destacaria nos poetas de sua geração, ou da chamada poesia jovem brasileira?
Não tem mais a espontaneidade dos poetas marginais dos anos 70. Hoje em dia, os poetas querem mostrar erudição, pecando muitas vezes por excesso. Vejo poetas que se esforçam em mostrar domínio de repertório, caindo muitas vezes num excesso de citações, epígrafes e palavras em francês. Essa é uma característica. Mas, entre as correntes atuantes, eu identifico pelo menos quatro tendências mais visíveis: os neo-conservadores, que escrevem como se vivessem em 1890 utilizando uma linguagem rebuscada e retrógada acompanhada de formas fixas tradicionais; os neo-barrocos, que formulam uma poética híbrida com exuberência de linguagem e profusão de imagens; os cultos, que trazem uma visão específica do modernismo na qual os poetas seguem a linha evolutiva de viés racional valorizando João Cabral de Melo Neto e os concretos; e, por fim, como contraponto a essa última tendência, há os dionisíacos e delirantes com sua poética visceral. Eu não me vejo enquadrado em nenhuma dessas linhagens.
Além de ignorar a produção poética fora do eixo, quais são os outros equívocos da crítica literária brasileira?
Ela não está cumprindo seu papel. Ela tem dificuldade em se posicionar diante do novo, do contemporâneo, preferindo escrever sobre o consagrado, o certo, o que está nos anais da história. Mas um crítico só se destaca quando faz suas apostas, sob o risco do erro.


