Quem visita o Museu de Arte de São Paulo (Masp) já se habituou à abordagem de poetas em seu vão de entrada. Criou-se ali, inclusive, um fenômeno curioso que remonta há duas décadas - autores londrinenses que fizeram do local o principal ponto para comercializar seus folhetos poéticos.
O poeta Ivan Petrovitch, 52 anos, é um deles. Há dois anos, vive na capital paulista ganhando a vida com seus versos. Formado em Letras pela UEL e em Teologia pelo seminário Antonio Godoy Sobrinho, ele está divulgando seu livro artesanal ''Haicais'' - um caderno em que reuniu sua produção poética recente totalmente inspirada no gênero haikai, poema japonês surgido no século XVI formado por três versos e 17 sílabas.
O autor adotou a versão em português da palavra, grafada com a letra 'c'. ''O haicai é uma poesia curta, direta, concisa e precisa que diz muito com poucas palavras'', salienta. ''É uma poesia de conteúdo muito rico. É como uma pequena luz, como a sensação de felicidade do arqueiro que atinge o alvo, do compositor que compõe uma música ou do pintor que termina um quadro. Já ouvi dizer que é melhor escrever um haicai que uma enciclopédia inteira. Na verdade, o haicai é natural para mim porque cresci num sítio em contato com a natureza. Já plantei muito café em Londrina''.
Com a cabeça raspada e usando trajes de monge, ele conta que tornou-se um estudioso do zen budismo, daí ter se aprofundado na poesia de origem oriental. ''É como se eu estivesse nascendo de novo'', diz. ''Me visto assim porque me sinto bem. Decidi raspar a cabeça quando comecei a ler sobre budismo. Os ensinamentos orientais propõem a prática do desapego e a ideia de viver integralmente o presente sem acumular ilusões, desejos e paixões. Trabalho quatro horas por dia e vivo feliz. Ganho o básico para sobreviver sem pretensões. Com a mente leve, conseguimos avaliar melhor as coisas. Nossa cabeça é como um computador: se você carrega programas em excesso, dá pau''.
Seu caderno artesanal traz textos de apresentação dos escritores Cláudio Feldman e Paulo Franchetti. Este último, que é professor da Unicamp (Universidade de Campinas), descreve a característica mais notável do haicai como ''a aliança de simplicidade de forma com sutileza espiritual''. Petrovitch assinala que já experimentou as várias vertentes do gênero. ''Já fiz todo tipo de haicai, alguns na linha do Bashô, outros influenciados pela urbanidade do Paulo Leminski e também por Guilherme de Almeida. Hoje estou mais solto, menos preso à forma, trabalhando a temática das permanências e das estações do ano'', explica.
Lembrando o período de sua iniciação poética, ele fala com saudosismo dos Murais de Poesia, realizados em Londrina entre as décadas de 70 e início dos 80. ''Participei de alguns'', conta. Antes de ''Haicais'', publicou dois outros volumes: ''Estação Paraíso'' (1993) e ''Zugzwang'' (1997). A quem interessar, seus versos - incluindo os novos - estão postados no blog: http://ivanpetrovitch.blogspot.com.

Haikais de Ivan Petrovitch
um som estridente
na primeira luz do dia
prosa das cigarras

plantação de trigo
a nuvem esconde o sol
chove diamantes

primeiros pingos
céu escuro, cheiro de mato
apresse os passos

triste sonata
a cigarra cantava
presa na jarra

mockup