Poesia visual em cena
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
O Filo 2001 apresentou nesse final de semana, no Teatro Zaqueu de Melo, autênticos manipuladores de poesia visual. O grupo Teatro Sim...Por Que Não? produziu uma declaração contra a violência, com o espetacular teatro de formas animadas Livres e Iguais.
A partir da desconstrução da Declaração dos Direitos Humanos, eles contam o cotidiano de seres desterrados numa cidade moderna, situada na imaginação. Na imundície do lixão de sucata, seres reciclados catavam detritos, numa repetida ação pela sobrevivência. A receita de ilusionismo do grupo de Teatro Sim... alterna o milenar teatro de sombras com o teatro de manipulação, revigorando a capacidade de indignação no público. O black-out no espaço cênico propicia um estado alterado de consciência. Assim, o público pode encontrar mais facilmente os caminhos da ilusão.
O espetáculo, de visual impactante, buscou na dicotomia exclusão social/poesia visual a forma mais eficaz de reflexão sobre a desvalorização da vida. Nessas imagens primordiais dos bonecos sem rostos, os encenadores trabalham ao mesmo tempo sentimentos e pensamentos. Se a realidade traz as marcas da violência nas relações, Livres e Iguais também mostrou que ainda existem momentos de descontração (como na cena do futebol), ternura (quando a mãe-bule amamenta o filho) e solidariedade.
Uma das cenas mais bem realizadas e comoventes mostrou a mãe-bule e seu filho se acochegando na noite fria. E o sonho chega abrasador. Se a realidade dos moradores do lixão é concreta e fria, o inconsciente compensa com abundância de riqueza das imagens. Vida concreta, sonhos abstratos. Nas formas endiabradamente infantis dos sonhos, retiradas de Juan Miró, Livres e Iguais recupera na plenitude da infância uma forma de libertar tudo o que se sobrepõe e flagela o ser urbano. O dia amanhecendo traz os espigões sombreados engolindo os sonhos, impondo a concretude cinza de mais um dia.
O espetáculo Livres e Iguais se revelou encantador na aparência e consistente na essência, deixando fragmentos na memória afetiva do público. Vale ressaltar a sintonia refinada dos atores-manipuladores com os bonecos. Dotados de um senso intuitivo aguçado, os quatro atores puderam mostrar o talento para a arte do ilusionismo porque têm um absoluto controle da técnica do teatro de manipulação.
Artistas inconformados com a realidade social, o grupo de Florianópolis, através do teatro de formas animadas decretou com Livres e Iguais:Todo homem tem direito a entrar em contato com o mundo lúdico para reinventar o mundo real.


