Poesia visual
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de agosto de 1997
Danielle Brito Especial para a Folha2 
Mario CesarValquíria Montemór: Minha poesia é intuitivaA poeta e artista gráfica Valquíria Montemór não se encaixa muito no perfil dos escritores contemporâneos. Talvez por não se prender em métricas pré-estabelecidas e fazer seus poemetos com a mesma dedicação de quem escreve versos solenes. Aos 40 anos, descobriu recentemente a poesia e, com ela, o traço como expressão de suas emoções. Desde então, o papel tem se tornado um campo amplo para esta paranaense com anos de Paulicéia Desvairada. Para ela, a poesia é livre. Não sou concretista. Minha poesia é intuitiva, reflete.
A produção poética de Valquíria tomou forma com o projeto do livro Pedra da Cantaria - Uma Visão Visual. Trata-se de um trabalho de poema-ilustração dedicado aos adolescentes - fase que, para a autora, é a mais obscura na vida dos seres humanos - explorando a incompreensão e percepção do mundo jovem. Escrevi pensando na minha própria fase. São poemas sobre a minha vivência, minhas observações sobre o cotidiano. Abrir o livro de Valquíria é vagar por um universo de figuras indecifráveis, referências a bichos, reis, bobos da corte e objetos do cotidiano, como lustres e guarda-chuvas. A palavra cumpre a função de chamar para a responsabilidade sobre a depredação da natureza, o transformar do homem, as formas de amar - incluindo problemas recorrentes na adolescência como Aids -, o amor incompreendido.
Inspiração A poesia de Valquíria é mais um exemplo de que pessoas sem tradição literária podem se aventurar no campo da poesia com certo êxito. A inspiração neste caso nasceu de uma breve leitura de Clarice Lispector, que lhe apresentou as possibilidades do poema. O estilo foi uma busca. A poesia você pode ler para o outro. A idéia do livro é que os adolescentres se juntem para ler, diz.
O projeto, ainda em preto-e-branco, prevê a inclusão de cor nas ilustrações, lançamento nacional através do Sesc e até camisetas com desenhos semelhantes aos do livro. Para ser editado o livro aguarda patrocínio. Enquanto isso, Valquíria produz mais poesia, um roteiro de cinema - intitulado Diário de uma Procura - e um levantamento sobre a morte transformando a visão através de várias óticas em poesia.


