Poesia sonora: da criação à crítica


Marian TrigueirosReportagem Local
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Enzo Minarelli: "Ao mesmo tempo em que é possível ter um estúdio dentro de casa, percebo que, hoje, existe uma subserviência à tecnologia, quando, na verdade, ela deve ser uma ferramenta"
Enzo Minarelli: "Ao mesmo tempo em que é possível ter um estúdio dentro de casa, percebo que, hoje, existe uma subserviência à tecnologia, quando, na verdade, ela deve ser uma ferramenta" | Anderson Coelho





"Só o desenvolvimento de novas tecnologias irá marcar o progresso da poesia sonora: meios eletrônicos e computadores são e serão as verdadeiras estrelas." O primeiro artigo do "Manifesto da Polipoesia" - documento publicado em 1987 pelo escritor e multiartista italiano Enzo Minarelli numa tentativa de teorizar o espetáculo da poesia sonora - acaba de completar, portanto, trinta anos. E apesar do estrondoso desenvolvimento da tecnologia nos últimos anos, ele confessa estar decepcionado com o que foi produzido nesse período. "Paradoxalmente, houve uma explosão da tecnologia de ponta, mas não houve um desenvolvimento da poesia sonora na mesma intensidade." O marco do documento, as produções pelo mundo, performances e perspectivas desta manifestação artística serão algumas das questões debatidas na aula show que Minarelli realiza nesta sexta-feira (17), às 20 horas, no Museu Histórico de Londrina, durante a programação do Londrix Festival Literário 2017.

O motivo para o descompasso entre tecnologia e produção, segundo ele, não é totalmente conhecido. Porém, o escritor arrisca-se a dizer que a falta de paciência dos jovens somada à extrema acessibilidade à tecnologia podem ser a causa de poucos trabalhos relevantes na área. "Ao mesmo tempo em que é possível ter um estúdio dentro de casa, percebo que, hoje, existe uma subserviência à tecnologia, quando, na verdade, ela deve ser uma ferramenta, um instrumento para o trabalho. Nós é quem tem temos que dominá-la. Ando desiludido com os rumos da produção em um futuro próximo; o que tenho visto é a repetição do que já foi feito ou uma execução de meros efeitos eletroacústicos", diz ele, autor de várias poesias sonoras, dentre elas, o famoso "Poema", em que apenas com esta palavra passeia pelos vários sentimentos da vida: da alegria à tristeza, da dor à morte, do cômico ao sofrimento, da violência ao banal, acompanhada de vários movimentos corporais e imagens. "Uso a mesma palavra para comunicar diversos sentimentos."

POLIPOESIA
Para entender - ou tentar entender - a polipoesia é preciso desvencilhar-se de qualquer amarra ou conceito prévio. Mais do que uma poesia gerada pela fusão de diferentes meios, a polipoesia proporciona ao público uma experiência em níveis sensoriais interrelacionada por vários elementos como a palavra, o som, o ruído, a imagem, a dança, a performance, entre outros. "Apesar de ser experimental, não há improviso; tudo é fruto de muita pesquisa e estudo, tudo tem um motivo de estar ali. Não se trata de piada, tampouco entretenimento ou um show de barulho", defende. A grosso modo, em outras palavras, não se deve confundir poesia sonora com poesia musicada ou musicalização de poemas, muito menos poesia declamada de forma emotiva e lírica. No entanto, limitar sua definição seria um equívoco.

Evolução das vanguardas poéticas do início do século XX, com influências do futurismo e dadaísmo, poesia sonora, portanto, pode ter várias definições e manifestações, abrindo novas possibilidades para a arte puramente literária e escrita. "Poesia sonora tem a linguagem como estrutura, mas esta se apresenta de muitas maneiras. Meu processo de criação começa como um projeto racional, no qual há a problematização e solução de um tema. Assim, ideia e a linguagem são exploradas de forma a liberarem uma energia que vem da alma. Os movimentos e as imagens completam o experimento", sintetiza.

Minarelli tem formação em Psicolinguística pela Universidade de Veneza e na década de 70 iniciou seu trabalho na área de vídeo, literatura experimental e sons. Em 1983 começou a trabalhar regularmente em "3ViTre dischi di polipoesia", dedicado à história e desenvolvimento da poesia sonora e cunhou o termo polipoesia com a publicação do Manifesto em 1987. Além das poesias sonoras, possui uma vasta lista de publicações, duas delas traduzidas no Brasil por Frederico Fernandes, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), "Polipoesia: Entre as Poéticas da Voz no Século XX" e "As razões da voz: entrevistas com protagonistas da poesia sonora do século XX", ambas pela Eduel. Outro livro está em andamento em comemoração aos trinta anos do Manifesto da Polipoesia, "Ensaios de performances acadêmicas", com base em trabalhos produzidos em todo o mundo, incluindo o Brasil.

Serviço:
Programação Londrix 2017
(dia 17 de fevereiro)
Café das Letras: Café com Prosa com Marco Fabiani, José Pedriali e Maria Angélica Constantino, às 18 horas, no Museu Histórico de Londrina

Menu Londrix: Gastronomia com temperos literários com Marcelo Sokolowiski, às 19 horas, na Menu Escola de Gastronomia

Aula show com Enzo Minarelli, às 20 horas, no Museu Histórico de Londrina

Performance "ZUT", ecoperformance de poesia biossonora com Djami Sezostre, às 22 horas, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis

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