Poesia sem pulsação e prosa sem emoção
Francelino França
De Londrina
Dois espetáculos teatrais apresentados em Londrina têm como ponto de partida textos literários de autores consagrados. O Marinheiro, baseado na obra de Fernando Pessoa, encenado pela Cia. Ex-Votos, no Núcleo I, continua em cartaz nesse final de semana. Sarapalha, a segunda peça, estreou na segunda-feira, dia 23, no Teatro Zaqueu de Melo, sendo uma adaptação do conto de Guimarães Rosa, apresentado pela Cia. Lobo de Teatro. A proposta desse grupo é apresentar Sarapalha para o público escolar.
O Marinheiro é basicamente um mosaico de textos de Fernando Pessoa e seus heterônimos, Mário Sá-Carneiro e também da diretora Silmara Oliveira Fernandes. O elemento que nutre os vasos comunicantes na colagem de textos é o incorrigível saudosismo português.
O branco árido do cenário de O Marinheiro insere as atrizes numa espécie de aquário, um mundo particularmente puro, que não se comunica com o exterior, mas pode ser observado. A cenografia, simetricamente desenhada, e a direção de arte foram concebidas pela dupla Birger Lipinski e Laércio Redondo são um desvio para o branco. Os artistas plásticos colocaram apenas alguns caprichos vermelhos no cenário poético, como flores, um lenço e um livro. A alma castiça da personagem dividida em três sobrevive somente naquele ambiente asséptico.
Sem sair de cena e sem conversarem umas com as outras, as atrizes representam apenas uma personagem. Suplantar os limites da poesia escrita e encantar o espectador pela oralidade poética é um desafio quixotesco. A âncora da magnetizante música e do encantador cenário não foi suficiente para que as atrizes da Cia. Ex-Votos tocassem o coração do público, que não conseguia formar a imagem mental daquilo que escutava, porque recebia imagens visuais de forma inadequada.
A poesia tem a natureza volúvel, e é feita de palavras febris, na esperança de aquecer o coração do leitor. Um verso pode fazer um leitor de refém, e esse mesmo verso pode inspirar uma fuga em outro leitor. Quando essa poesia é transportada para o palco é necessária uma adequação de linguagem. Outros elementos passam a fazer parte da poesia.
O Marinheiro é um mosaico de poemas assumidamente pessimistas, interpretados de forma horizontal, linear, como se cada palavra tivesse sempre a mesma temperatura. A poesia que reverbera interiormente nas atrizes não encontra espaço além dos domínios do palco. Para compartilhar o saudosismo patológico lusitano com o público seria preciso encontrar o tom certo de verbalizar o texto, encontrar a pulsação de cada palavra, a textura e a entonação. Tudo isso para compensar uma proposta cênica desprovida de ação.
Como já declarou à imprensa, a diretora Silmara Oliveira Fernandes não gosta de teatro, ou melhor, não gosta de determinado tipo de teatro, aquele verborrágico, escorado no blablablá. Na concepção de Silmara, as artes cênicas não evoluíram como as artes plásticas. No entanto, esse novo teatro sonhado por ela ficou apenas no imaginário. Vanguarda ou tradicional, o teatro ainda é uma forma de compartilhar idéias e emoções.
A outra encenação adaptada de obra literária de autor consagrado é Sarapalha, conto do primeiro livro de Guimarães Rosa, Sagarana. No sertão, numa fazenda capenga, dois primos vitimidados pela malária, Argemiro e Ribeiro, deixam fluir os temores interiores, em meios aos delírios febris. A obra singular de Rosa possui uma linguagem vigorosa, dificultando consideravelmente qualquer intenção de adaptação teatral. O miserê cênico apenas uma tapera criado pelos encenadores londrinenses se contrapõe à riqueza literária de Rosa, tão abundante em detalhes.
Paulo Castro, ator e diretor, declarou à reportagem da Folha2 que o marcante deste espetáculo é o trabalho de ator. E é impossível fazer Guimarães Rosa sem ter uma vasta experiência. A declarada vasta experiência foi completamente esquecida pelos integrantes da Cia. Lobo. O ator Clovis Bezerra, alegando incompatibilidade com a direção, zarpou do espetáculo no dia da estréia. Mesmo assim, Castro levou a termo a apresentação. Laçou a operadora de luz para substituir Clovis Bezerra. Tão expressiva quanto uma geladeira, a garota adquiriu a vasta experiência em apenas uma hora e meia de ensaio, tempo em que ficou decorando o texto. O amadorismo (no sentido pejorativo da palavra) resultou numa desanimadora apresentação de 25 minutos. Vender um produto e entregar outro fere o Código de Defesa do Consumidor. Pior que isso, os integrantes e ex-integrantes da Cia. Lobo de Teatro demonstraram um comportamento irresponsável diante de um público interessado na obra de Guimarães Rosa.
O propósito didático alardeado por Paulo Castro e Clovis Bezerra não passa de uma falácia. Na apresentação de estréia, o público estava visivelmente constrangido. Paulo Castro tentou justificar a troca de atores na última hora, saiu com um sorriso amarelo e ouviu tímidos aplausos dados apenas por elegância.





