Ele foi um pouco de tudo - poeta, matemático, astrólogo, filósofo, membro de seitas satânicas e profundo amante das mulheres e do vinho. O Ocidente o conhece por sua obra poética, as Rubayat. E seu nome é grafado em diversos formatos, sendo o mais comum aquele que o denomina Omar Khayyam. Até o período em que viveu é controverso, sabendo-se com segurança que andou pela Terra entre os séculos 11 e 12.
Apesar de ter criado um calendário mais exato que o gregoriano, de ter contribuído para o avanço da álgebra durante a Idade Média, de ter acrescentado à filosofia uma posição inovadora (uma leitura resignada de Epicuro), Khayyam é geralmente lembrado pela sua produção poética. Não que o persa seja um poeta menor, mas só em 1859, quando Edward Fitzgerald verteu para o inglês as rubayats, é que seu nome se tornou usual no Ocidente.
A web oferece diversas impressões sobre a obra do poeta persa, resultando, só em português, em cerca de 360 referências ao seu nome. O site www.islam.org.br traz um resumo de seu legado, acentuando seus feitos na matemática e astrologia. A página www.ciencia.cultura.com também mostra seus alcances na álgebra, detalhando até os comentários que grandes matemáticos fizeram acerca de suas descobertas. O portal árabe www.arabias.com.br traz uma breve notícia biográfica acerca de Omar, apresentando um pouco do tudo que fez.
Há textos detalhados, como o preciso comentário que pode ser encontrado na homepage www.africanet.com.br. Mas nada que seja melhor que seus versos. Nessa mesma página o leitor poderá se deliciar com escritos que zombam da velha idéia humana que julga o homem senhor de seu destino. Eis um trecho: ''Admitamos que tenhas resolvido o enigma da criação. Qual é o teu destino?
Admitamos que tenhas podido desvendar a verdade. Qual é o teu destino? Admitamos que tenhas vivido cem anos, feliz, e que vivas ainda outros cem:
Qual é o teu destino?''.
Jorge Luis Borges adorava seus versos, lendo em espanhol a tradução que seu próprio pai realizou. Fernando Pessoa também frequentava a sua obra, determinando o heterônimo Bernado Soares a citar o persa em ''O Livro do Desassossego''.
Versos de Khayyam sempre foram uma ode à vida, à falta de sentido dela, à incapacidade de nossa razão entender algo sobre a nossa existência. Ele preferia cantar o instinto à supremacia do racional, o que evidencia um claro contraste entre Oriente e Ocidente: ''Sabeis, amigos meus, que com grandes festas contraí segundas núpcias em minha casa: divorciei-me em meu leito da estéril razão e tomei a filha do vinho como esposa. O vinho! que, com lógica absoluta pode refutar setenta e duas seitas em discórdia: soberano alquimista que em instantes transmuta em ouro o fardo desta vida''.
No Brasil, foi traduzido pelo poeta Manuel Bandeira, versão aliás, reeditada esse ano pela Ediouro. Reler Omar Khayyam hoje contribui também para nos evidenciar a visão deturpada que o Ocidente há séculos molda do Oriente. Sempre nos referimos à Idade Média como uma época negra, uma certa ''idade das trevas'', em que nada de substancial restou para a humanidade. Basta ver a força dos versos de Khayyam, suas conquistas na álgebra e astrologia, para se concluir que Oscar Wilde não estava errado quando reverenciava o persa como sábio à estatura de Salomão. [email protected]

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