Poesia numa estante quase vazia
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2019
Célia Musilli <br> Editora da Folha 2 
No últimos dias de dezembro, em Campinas, numa dessas grandes livrarias em crise, encontrei numa estante alguns poucos volumes da melhor poesia. Em edição da L&PM, vi a Antologia Poética de Anna Akhmátova, autora russa que já conhecia, mas de quem nunca é demais aprofundar o conhecimento.

A apresentação de Lauro Machado Coelho, na edição de 2018, guarda a consistência de um texto repleto de informações interessantes, profundas, denunciadoras do estado de coisas que Akhmátova encontrou nos anos de sua juventude, maturidade e velhice na Rússia.
O abatimento de uma poeta sensível diante das atrocidades do governo de Stalin convivem com um lirismo que acerta as contas entre a realidade e a literatura, ainda que sob a opressão política.
A poeta, registrada como Anna Andrêievna, já conhecia outros tipos de opressão. Na juventude, quando publicou seu primeiro poema, em 1909, o pai, que desaprovava o envolvimento da filha com literatura, lhe disse: "Pelo menos vê se não envergonha meu nome." Assim, ela passou a assinar Anna Akhmátova, numa referência ao sobrenome da avó.
No início do século 20, Akhmátova não pertencia nem à Escola Simbolista, da qual não apreciava as "imagens nebulosas", nem à corrente revolucionária de Vladimir Maiakovski. Integrou o movimento Acmeísta preferindo a linguagem mais coloquial que empregaria na sua criação e que marcaria sua produção como um testemunho de sua vida e de seu povo.
A poeta teve uma vida sofrida no regime stalinista, no qual muitos de seus amigos artistas perderam a vida ou foram trancados em prisões e campos de concentração. Anna foi casada com Nikolai Gumióv, morto pelo regime, e seu filho Liev Guióv foi prisioneiro durante anos. Para poupar a vida do filho, a poeta foi obrigada a publicar poemas favoráveis a Stalin, num desses exemplos históricos, tanto da direita quanto da esquerda, de correntes ideológicas que submetem artistas a humilhações e apoios forçados.
Ela vivenciou fases de expurgos em que toda produção intelectual era posta a serviço do Estado. Igualmente era usada por combater o nazismo nas fases em que isso interessava ao regime stalinista. Quando vemos na contemporaneidade fechamentos de exposições e tentativas de censura nas artes, temos diante dos olhos exemplos da extensão que isso pode tomar quando governos adulam ou reprimem artistas conforme seus interesses.
Anna Akhmátova nunca deixou a Rússia porque nunca quis se separar de 'sua gente', como registra na epígrafe de 'Réquiem - um ciclo de poemas' (1935/1957): "Não, não foi sob um céu estrangeiro,(...)/ estava bem no meio do meu povo,/ lá onde estava meu povo em desventura estava".
O texto de Lauro Machado Coelho, que também fez a tradução dos poemas de Akhmátova para esta edição, é uma colagem precisa das fases criativas de uma das grandes poetas da Rússia afinada com relatos de sua existência. Akhmátova faleceu em 1966, num hospital de Moscou, vítima de ataque cardíaco.
O tradutor e organizador da obra fez um longo trabalho de vinte anos recolhendo poemas que integram essa antologia encontrada numa livraria já desfalcada, talvez na iminência de fechamento, sinalizando que a literatura sempre fará falta pelo que comporta de pensamento, emoção, estilo, história e vida porque os autores morrem, mas sua obra sobrevive a regimes de força e, de forma desafiadora, a todo sofrimento e falência cultural.


