Poesia no limite de fundir ternura e sangue
São Paulo - O mistério sempre cercou a obra do curitibano Dalton Jérson Trevisan, que nasceu em 1925. Antes de conquistar o grande público, quando ainda não passava de um estudante de direito, ele lançava seus contos em folhetos. Em 1945, estreou com um livro de qualidade incomum, ''Sonata ao Luar'', e, no ano seguinte, lançou ''Sete Anos de Pastor'', ambos devidamente renegados pelo autor, orgulhoso de não guardar nenhum exemplar dos dois.
Entre 1946 e 1948, editou a revista ''Joaquim'', publicação que se tornou porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais. Reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mario de Andrade e Otto Maria Carpeaux e poemas até então inéditos, como ''O Caso do Vestido'', de Carlos Drummond de Andrade. Além disso, trazia traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e era ilustrada por artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres.
É nessa época que Trevisan inicia sua aversão por fotografias e entrevistas, preferindo passear incógnito pela cidade, observando situações e ouvindo diálogos que vão inspirar seu contos. Se, à primeira vista, trazem mesquinharia, sofrimento, tara, ciúme e dor, as histórias revelam o poder regenerador de Trevisan, capaz de ver humanidade onde parece dominar a tragédia.
''É inegável que há poesia em tudo o que ele vem escrevendo, mas poesia que corta, que machuca o leitor'', observa o artista plástico Carlos Della Stela, em texto recolhido por Felipe Hirsch. ''Ou, pior, uma poesia que chega ao limite de fundir ternura e sangue. Por alguns segundos, o juízo é suspenso e nos vemos feitos da mesma matéria de que são feitos esses personagens 'desumanos' que certa crítica insiste em restringir à classe média baixa, quando não ao passado, erro ainda mais grosseiro.''
Inspirado pela Bíblia, Homero, Tolstoi, Flaubert, Chekhov, Kafka e Machado de Assis, como chegou a divulgar em raro documento distribuído à imprensa, Trevisan definia, com a mesma precisão, seu estilo: a maneira mais singela conta a história mais tenebrosa. (U.B.)





