São Paulo, 12 (AE) - Em 1987, quando um exame mostrou que Cazuza era soropositivo, a crônica ingênua do rock nacional começou a dar uma guinada. Porta-voz autodestrutivo de uma geração nervosa, apressada, Cazuza levou dois anos negando a doença, mas depois resolveu encará-la em público, como forma também de bater-se contra o "mal do século" e os preconceitos que o cercavam.
Ainda assim, não era um super-homem. No livro que sua mãe, Lucinha Araújo, escreveu, "Cazuza - Só as Mães São Felizes" (Editora Globo), ela conta que o estado de saúde do cantor se agravou após notícia que dizia que o cantor "agonizava em praça pública", com a exploração de sua degenerescência física como combustível da notícia.
"Sua imagem é a de um menino que busca a transgressão, que cultua a margem como os beatniks, e é por isso que ele me fascina", disse Regina Echeverria, a quem Lucinha Araújo incumbiu de escrever seu depoimento e transformá-lo em livro. "Se por um lado ele brigava e ofendia por nada e falava besteira, por outro ele era do tipo que, se necessário, tirava a roupa do corpo e dava aos outros", ponderou a jornalista.
"Adoro quando as fãs rasgam minha roupa, sinto-me o próprio Cauby Peixoto", afirmou Cazuza em uma entrevista. "Os marginais estão mais perto de Deus", ressaltou. Sua sobrevida artística parece não despertar a mesma curiosidade da de Renato Russo, outro anjo torto do rock dos anos 80. Mas é mera impressão: não passa um mês sem que alguém regrave uma canção de Cazuza, ou que o próprio Barão Vermelho - a banda na qual se lançou - não emplaque um velho novo hit nas rádios nacionais.
Mentiras sinceras me interessam. A solidão é pretensão de quem fica escondido, fazendo fita. Solidão a dois de dia: faz calor, depois faz frio. Se eu te escondo a verdade, baby, é para te proteger da solidão.
A poesia popular de Cazuza e de Renato Russo revitalizou o legado lírico da música brasileira nos anos 80, até então uma dependente quase química da tríade Caetano-Gil-Chico Buarque. Sua importância, assim como sua confusão existencial, não foi pequena. Os que não gostam dele ou de Renato Russo os acusam principalmente de não ter um suporte musical de peso, adequado ao rock. Certo: nos anos 80, quase ninguém sabia patavina de música. Mas sua intuição foi incomensurável. (J.M.)

mockup