A vasta, múltipla e ainda insondável poesia contemporânea brasileira acaba de ganhar uma revista de reflexão. ''Sebastião'', editada pelo selo Sebastião Grifo, chega ao público com periodicidade semestral reunindo poemas, ensaios e entrevistas.
O lançamento vem suprir uma lacuna na crítica, que não raro mostra-se zelosa na análise de obras e autores consagrados e omissa na avaliação da produção poética recente. ''O que parece estar existindo é boa propaganda, bons lobbies, boa circulação de livros e poemas, mas não debate'' salientam os editores na introdução.
Na revista, o diálogo entre a criação e a crítica se apresenta sem rodeios obedecendo a um único formato: um poema, em geral inédito, e um ensaio comentando esse poema. O projeto gráfico traz ilustrações antigas, inspiradas na época em que se esboçava as técnicas de impressão gráfica.
O subtítulo ''Novos Olhos sobre a Nova Poesia Brasileira'' é levado ao pé da letra. Nenhuma página é dedicada a Drummond, Bandeira, Vinícius, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, os irmãos Campos ou outros notáveis do verso verde-amarelo.
Do elenco reunido, os mais veteranos surgiram no final dos anos 70, quando muito. O número de estréia traz dobradinhas como Frederico Barbosa por Amador Ribeiro Neto, Paulo Henriques Brito por Nelson Ascher, Ademir Assunção por Reynaldo Jiménez, Régis Bonvicino por Romulo Valle Salvino e Donizete Galvão por Sérgio Alcides.
Inclui ainda entrevistas com o poeta Armando Freitas Filho e com a professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP Viviane Bosi, ambos respondendo às mesmas questões. Freitas Filho observa, à certa altura, que não há ''puros-sangues'' na poesia brasileira que se faz hoje. ''As influências são mistas. Sendo assim, os bastardos são legião, o que é muito mais saudável e forte do que as antigas descendências muito ciosas e aflitas com suas filiações sem aventura e risco'' diz.
Viviane, por sua vez, destaca entre os traços dominantes da nova poesia ''o gosto do mínimo, a frase incisiva como gravura, o eu esquivo e auto-irônico, o corte e a elipse''. Em outros casos, percebe um ''exibicionismo cultural, com a elaboração de poemas cheios de alusões eruditas'' dando a impressão de ''falta de estofo vital e um elitismo meio desfibrado, típico do pastiche''.
O debate, enfim, está aberto. Além dos citados, a lista de colaboradores do número de estréia conta com Manuel da Costa Pinto, Ruy Espinheira Filho, André Dick, Ruy Proença, Iuri Pereira, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Guilherme Vaz de Oliveira Resstom, Iacyr Anderson Freitas, Luigi Augusto de Oliveira e Reynaldo Damazio.


qRevista ''Sebastião''. 96 páginas. R$ 15,00. Editora Grifo Sebastião ([email protected]).

mockup