Poesia em CD
Vários audiolivros chegam ao mercado
reunindo poemas de autores consagrados
Nelson Sato
ReproduçãoAntonio CiceroAgora não vai ter mais desculpa. Se você é do time que diz gostar de poesia, mas que não lê por falta de tempo ou preguiça, trate de inventar outra - ou comemorar. É que uma série de CDs começa a invadir o mercado trazendo, em vez de música, poesia oralizada.
O fenômeno aponta para a retomada de uma tradição européia e norte-americana: o formato audiolivro, que no Brasil da década de 50 fez a cabeça de uma geração com os célebres long-plays da coleção Festa, um banquete cujo cardápio trazia a apresentação de poemas pelas vozes dos próprios autores, gente como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Vinicius de Moraes.
Os atuais lançamentos partem de projetos distintos e de várias regiões do País incluindo as principais capitais, o Nordeste e até Londrina. Entre os destaques da fornada consta o CD Poesia Paulista - 12 Canções, que reúne textos musicados de 12 autores selecionados a partir de quatro momentos da criação poética paulistana deste século.
O critério brindou representantes da Semana Moderna de 22 (Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Luis Aranha), Geração de 45 (Geraldo Vidigal, Mario da Silva Brito e Afranio Zuccolotto), concretistas (Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos) e contemporâneos (Arnaldo Antunes, Nelson Ascher e Régis Bonvicino).
Arquivo FolhaNelson
CapuchoO projeto é de cunho erudito, com a música integrada à própria estrutura dos textos e fugindo do estereótipo de saraus em que poetas declamam seus versos acompanhados ao violão. Para musicar os poemas foram convidados os compositores Achille Picchi, Eduardo Guimarães Álvares e José Augusto Mannis. A soprano Katia Guedes, radicada atualmente na Alemanha, faz participação especial.
As peças se traduzem em canções para voz e conjunto de câmara - piano, violino, violoncelo e clarinete. As composições variam desde séries dodecafônicas ao humor nonsense e dissonâncias em que instrumentos substituem concretamente o som verbal - explica o músico e coordenador do CD Dante Pignatari.
Também recém-lançada no mercado, a série Poesia Falada ficou mais disponível ao grande público agora, com sua inclusão no catálogo do MusicClub, espécie de clube do CD similar ao Círculo do Livro. A coleção saiu pela editora Luz da Cidade, idealizada pelo produtor Paulinho Lima. O título inaugural foi o CD book Boca do Inferno, uma antologia de poemas de Gregório de Mattos recitados por Nilda Spencer e musicados por Nico Rezende.
Seguiu-se Antonio Cicero por Antonio Cicero, onde o irmão da cantora Marina faz a leitura a seco de 41 poemas de sua autoria e um com trilha sonora assinada por Nico Rezende. O mineiro Affonso Romano de SantAnna foi o terceiro autor escolhido, recebendo a colaboração da atriz Tônia Carrero, que deu voz a seus versos.
ReproduçãoArnaldo
AntunesNa sequência da série, a paranaense Helena Kolody foi homenageada com 80 poemas curtos acompanhada por melodias e efeitos sonoros compostos por Iuri Cunha. Bem-sucedido em sua iniciativa, Paulinho Lima acaba de receber convite da Academia Brasileira de Letras para trabalhar em cima de obras dos imortais. O ator Lima Duarte já foi convocado para narrar os álbuns.
Como prova de que a febre dos audiobooks ataca até os mais fiéis amantes dos livros, o bibliófilo e empresário José Mindlin está oferecendo um prato cheio para os que ignoram outros poetas que não sejam os manjadíssimos de sempre. Ele acaba de lançar um CD contendo a leitura de duas dezenas de poemas de figuras consagradas.
O disco, batizado de O Prazer da Poesia, foi gravado a convite do diretor da gravadora Eldorado, José Lara Mesquita, e traz poemas famosos como Soneto da Separação de Vinicius de Moraes e Profundamente de Manuel Bandeira. Bandeira, aliás, figura em outro disco do gênero. É o CD Voz Poética, que foi lançado há dois meses acompanhado de livro com os poemas.
O projeto, resultado de uma parceria da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE) com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), traz versos e vozes de poetas locais. Reverberando o sucesso do audiolivro na região, o escritor e também secretário de cultura do Estado Ariano Suassuna é outro que resolveu trocar a letra impressa pela vocalização dos textos.
Conhecido pela radical defesa do folclore e de manifestações culturais de raiz, Suassuna lançou ontem no Sesc de Recife o CD A Poesia Viva, que reúne 16 sonetos de sua autoria - 12 deles inéditos em livro. Os poemas, recitados pelo próprio autor, foram musicados por Antônio Zoca Madureira, compositor e líder da Orquestra Romançal.
Descendo o mapa cultural do país, Londrina ecoa o fenômeno com o CD Doze, previsto para ser lançado em novembro junto com o livro homônimo. O projeto, organizado pela produtora Christine Vianna, reúne a produção de 12 autores locais - ou que desenvolveram sua poética na cidade. Entre os nomes contemplados no projeto figuram Mário Bortolotto, Ademir Assunção e Nelson Capucho.
As pessoas gostam mais de ouvir do que ler. A idéia da gravação é recuperar a oralidade da poesia, arrancando-a do papel para dar-lhe mais vida - explica a produtora. O CD está em fase de gravação. Cada poeta participa com dois textos, sendo responsável pelo tratamento conferido às interpretações.
A onda prossegue desovando CDs. A poeta carioca Neide Arcanjo já engatilha um projeto em que contará com a participação da cantora Maria Bethânia, e o roqueiro Sérgio Brito (dos Titãs) acaba de ser convidado para interpretar um poema de Pablo Neruda num disco a ser lançado pela gravadora Warner do Chile em homenagem ao poeta. Quem disse que lugar de poesia é o livro?





