São Paulo, 22 (AE) - Cacá Diegues era um adolescente quando viu, em 1956, a peça "Orfeu da Conceição", de Vinícius de Morais. Foi um choque para ele. Alguns anos depois, assistiu ao filme "Orfeu Negro", que o francês Marcel Camus tirou da peça. Sentiu-se ultrajado com o que considerou a visão folclorizante do cineasta, com aquele morro em que as pessoas só cantavam e faziam amor. Desde então, alimentou o desejo de voltar às origens da peça. O "Orfeu" de Diegues estréia amanhã (23) em 130 cinemas de todo o País. É uma produção de R$ 7 milhões da Rio Vermelho com a Globo Filmes, distribuída, no País e no exterior, pela Warner.
Na semana passada, Diegues esteve na novela "Suave Veneno" para promover o filme. Por falta de promoção é que "Orfeu" não vai deixar de decolar. Recentemente, Diegues reviu "Orfeu Negro". Até gostou um pouquinho. Percebe-se. Diegues não fala, mas o seu "Orfeu" dialoga com o de Camus. No filme antigo, Orfeu era um condutor de bondes, mas interpretado por um craque do futebol, Breno Melo. O Orfeu de Diegues é um compositor e carnavalesco dos morros cariocas. Está tão atualizado que usa laptop para compor. Numa cena, o Orfeu de Diegues (Toni Garrido, vocalista do Cidade Negra) ensaia uns passos de futebol. É um eco de Camus, claro. Do francês também vem a atriz Lea Garcia. Não por acaso, ela faz agora a mãe do garoto do morro que quer ser como Michael Jackson, mas termina encontrando suas raízes artísticas (e brasileiras).
Há dois filmes em "Orfeu". Um é um documentário quase sociológico sobre a violência do narcotráfico na favela. O outro é a transposição do mito grego de "Orfeu e Eurídice", o poeta que encantava a todos com a musicalidade da sua poesia e que vai ao inferno para resgatar a amada. O inferno de Diegues é criado pelo narcotráfico, um despenhadeiro em que o traficante Lucinho (Murilo Benício) desova seus inimigos. Há momentos em que os dois filmes dialogam entre si. Há outros em que seguem paralelos
sem articular-se. De um lado, a violência. De outro, a poesia. Desequilibrado, no meio, o filme.
Orfeu no espelho evoca a imagem célebre de Jean Marais no "Orfeu" de Jean Cocteau. Há críticos que tentam responsabilizar Toni Garrido pelas fraquezas do filme. Exageram. Ele pode não ser um verdadeiro ator, mas não está tão ruim. Patrícia França é pior. Quando Orfeu diz que passou a vida toda esperando essa mulher, ela é tão sem brilho, embora bonitinha, que é difícil acreditar. E quem acredita quando Isabel Fillardis investe contra Orfeu possuída por mil demônios no desfecho? Falta paixão no "Orfeu" de Diegues para que o espectador possa acreditar que os perigos desta vida são demais para quem ama com intensidade, como diz a frase no cartaz.
Há imagens que não colam: Caetano dando uma de seresteiro na favela, quando, ao mito de Orfeu, se superpõe o de Narciso. Por falar nele, a trilha é discreta, quase apática. Deixa saudade das canções antigas (e clássicas) do filme de Camus. Não é um mau filme, contudo. Tem coisas sensíveis. Pena que sejam esparsas. Não bastam para tornar "Orfeu" o filme imperdível com que Diegues sonhou tantos anos.

mockup