Anna Akhmátova:ao mesmo tempo em que sua poesia era popular, também era proibida de circular em livros jornais e revistas no período stanilista
Anna Akhmátova:ao mesmo tempo em que sua poesia era popular, também era proibida de circular em livros jornais e revistas no período stanilista | Foto: Fotos: Divulgação



A literatura russa sempre foi um território predominantemente masculino. A prosa e a poesia sempre viveram nas mãos dos homens. Poucas mulheres ganharam visibilidade literária ao longo dos séculos, mas dois nomes se destacaram: Anna Akhmátova (1889 – 1966) e Marina Tsvietáieva (1892 – 1944).
Seguindo caminhos e linguagens diferentes, Anna e Marina criaram uma poética de forte impacto. Tiveram igualmente uma vida pontuada pelo sofrimento. Assistiram seus maridos, filhos, amigos e amantes serem presos ou fuzilados após a Revolução Russa ou morrerem nas guerras que abalaram a Europa. Anna aguentou a barra até o fim. Marina não, cometeu suicídio em 1944.
No Brasil existe uma única antologia publicada com a poesia de Anna Akhmátova. Organizada e traduzida por Lauro Machado Coelho o volume foi lançado originalmente em 1991. Quase vinte anos depois, a editora L&PM está relançando a obra. A nova edição chega às livrarias acrescida de novos poemas. Entre as novidades está o "Poema Sem Herói" em seu formato integral, um dos textos mais cultuados da literatura de Anna.
Anna Akhmátova nasceu com o nome de Anna Andrêievna Gorienko em 1889, em Odessa. Ao publicar seus primeiros poemas numa revista literária em 1909, levou uma grande reprimenda do pai militar que desaprovava suas veleidades poéticas. O pai vociferava que ela iria envergonhar o nome da família com seus escritos. A partir desse dia, Anna abandonou o sobrenome paterno para assinar Akhmátova, sobrenome da avó materna de origem tártara.
Anna integrou o movimento literário do acmeísmo, nascido antes da Revolução Bolchevique. Os acmeístas defendiam que a palavra deveria ser valorizada não pelo seu som, mas por seus significados. Era um movimento neoclássico conservador que defendia a preservação das tradições culturais, apesar de utilizar o tom confessional e individual.
Quando o chamado realismo socialista entrou em vigor como imposição no mundo as artes na Revolução Vermelha, Anna não se encaixou na nova ordem social e estética e comeu o pão que o diabo amassou. Ao mesmo tempo em que era sua poesia era popular, também era proibida de circular em livros jornais e revistas.
Akhmátova se recolheu ao silêncio ao longo de duas décadas. Segundo a lenda, escrevia poemas, memorizava-os, para em seguida colocar fogo nos originais. Sua grande luta foi tentar tirar o filho da cadeia e livrá-lo do fuzilamento, uma jornada de anos. No desespero, chegou até escrever poemas de louvor à Josef Stalin, sem resultado.
A poesia de Anna fala de sentimentos humanos em suas diversas possibilidades. O amor e a dor podem ser considerados o grande tema de sua produção, uma poesia confessional que, em alguns casos, fala diretamente ao leitor. Um enfoque psicológico que parte da dor individual para projetar o sentimento da dor coletiva.

Serviço:
"Antologia Poética"
Autora – Anna Akhmátova
Editora – L&PM
Organização e tradução – Lauro Machado Coelho
Páginas – 208
Quanto – R$ 26,90

Imagem ilustrativa da imagem Poesia dos olhos cinzentos



[left]Fragmento


E aqui renunciei a tudo.
A todos os bens terrestres.
O cepo de árvore do bosque converteu-se
no espírito guardião deste lugar.

Todos nós somos um pouco hóspedes desta vida.
Viver é apenas um pequeno hábito.
Parece-me ouvir, nos aéreos caminhos,
o som de duas vozes conversando.

De duas? Mas ainda há, perto do muro leste,
em meio aos robustos pés de framboesa,
a sombra fresca do ramo do sabugueiro.
Esta é uma carta de Marina.


000

Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.

E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, tremendo rupturas
e cantando canções de amor.

Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes cairá o silêncio...
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.


000

Por causa de teu amor enigmático
eu gemo como uma enferma.
Fui ficando amarelada e trêmula,
quase não consigo mais andar.

Não me venha com novas canções,
que elas podem ser enganadoras;
mas arranha, arranha com mais força
este meu peito de tísica,

para que o sangue mais rápido espirre
de meu colo sobre a cama,
e a morte de meu coração arranque
para sempre esta maldita embriaguez.


000

Já me atirei aos pés de teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
e não consigo mais distinguir, agora,
quem a fera, quem o homem,
e quanto terei de esperar até sua execução.
Só o que me resta são flores empoeiradas
e o tilintar do turíbulo e pegadas
que levam de lugar nenhum a parte alguma.
E bem nos olhos me olha,
com a ameaça de uma morte próxima,
uma estrela enorme.


(Poemas que integram "Antologia Poética" de Anna Akhmátova)[/left]

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