Poesia de concreto armado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
Maria Teresa Dal Moro Especial para a Folha2 
Os resultados do vestibular 98 deixaram as autoridades educacionais perplexas. Descobriram: os jovens brasileiros não cultivam a leitura e, os que pretendem estudar Letras ficaram com a pior cotação, pouco acima de Matemática e Física. Pensam estes estudantes que vão descobrir a literatura aos vinte anos? Não. O bom livro deve irradiar seu fascínio a partir dos oito. Se nessa idade, a criança não estiver encantada com a leitura, pode até pular o primeiro grau mas, no segundo, na adolescência da vida, os livros são a melhor companhia. E não se trata apenas dos textos escolares. Estes são teoria; na vida cultural, a prática é outra.
ReproduçãoSede do Partido Comunista Francês: as curvas femininas inspiram as obras de NiemeyerNo momento, um livro que não pode passar despercebido é As Curvas do Tempo, memórias de Oscar Niemeyer, da Editora Revan. Trata-se de leitura despretenciosa, divertida, escrita com elegância portuguesa, malícia brasileira, permanente emoção e risos. Não são apenas memórias daquele Niemeyer que todo brasileiro cita com orgulho. Vai além da arquitetura que lhe deu projeção mundial. Devagar, na sua esfuziante boêmia, entra inteiro no humanismo e nele se projeta como uma das maiores personalidades do fim do milênio. O século XX é pouco para a grandeza de Niemeyer. Ele nasceu com o descobrimento do Brasil, pleno da generosidade e idealismo dos que têm inteligência guiada por um espírito superior. As Curvas do Tempo não abre mão das curvas femininas. Elas estão presentes em passagens divertidas, cheias de humor e graça.
O importante nas memórias de Oscar Niemeyer é a simplicidade do estilo. O arquiteto também arquiteta palavras com a mesma segurança do traço das curvas que o levaram à glória. E mostra que, desde jovem, leu muito. Só assim chegaria aos noventa anos fiel ao seu ideal político. Continua comunista porque nunca confundiu socialismo com comunismo. Numa época em que socialistas viram a casaca por interesse, Niemeyer revela tacitamente o segredo do seu idealismo: nunca amou o dinheiro e amou muito os oprimidos. E nunca se deslumbrou com o próprio talento.
Ele viveu numa época em que os jovens podiam ter uma sexualidade sadia e sem riscos mortais como hoje. São divertidíssimas as passagens em que narra as aventuras de sua turma de boêmios: a sedução pelas curvas femininas, as viagens mirabolantes em estradas do Brasil. O surgimento da capital, os sonhos de Juscelino. Fatos que adquirem uma nova realidade porque nas memórias não há ficção. São coisas que o brasileiro sabe contadas pelos outros e não pelos personagens. Ditos que entraram para história como o encontro de Agildo Barata, integrante do PCB de Prestes, ao ser preso em 1935 com um grupo de subversivos. Um militar exaltado pergunta: Onde está o filho da puta do Agildo Barata? Destacando-se do grupo, ele se apresenta: Agildo Barata sou eu, filho da puta é você.
ReproduçãoLendo devagar não esqueça o lápis, a não ser que você seja do tipo que lê e logo esquece o livro ou tem memória de elefante. Pela importância histórica e poética, As Curvas do Tempo merece a ternura de sua atenção.
Importante: só leia a orelha depois de acabar o livro. A apresentação de Ferreira Gullar acaba matando sua sensibilidade porque antecipa a emoção que todo leitor gosta de descobrir sozinho. É bom cultivar o hábito de não aceitar imposições de orelhudos.
A edição da Revan comete algumas falhas imperdoáveis. O nome completo do cubano revolucionário é Fidel Castro Ruiz (e não Ruz), o do Che é Ernesto Guevara de La Serna (e não Senna), e o poeta citado por Borges merecia dados biográficos nas Notas de Texto. Os versos são do soneto Siempre do boliviano Ricardo Jaimes Freyre que, junto com Rubén Darío, fundou em Buenos Aires a famosa Revista de América, e foi Ministro Plenipotenciário da Bolívia na época de Don Pedro II. Expoente máximo do modernismo hispanoamericano ao lado de Darío e do argentino Leopoldo Lugones, nascido em 1868 e falecido em 1933, Ricardo Jaimes Freyre está incluído entre os titãs da poesia universal.
Nas páginas de As Curvas do Tempo há fotos das obras mais importantes de Oscar Niemeyer e dá para entender, mais do que nunca, porque ele chegou à imortalidade. Não era de cimento armado, rígido e reto, o grande brasileiro que colocou nas curvas da eternidade as curvas do seu gênio e deixou para o futuro monumentos que vão permanecer vivos para sempre.


