Poesia de além-mar
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de março de 1999
Zeca Corrêa Leite 
Um pescador mergulha em sua alma e em suas profundidades encontra a si próprio, quando a procura era por Alfonsina, a mulher que caminhou águas adentro, em passos decididos para a morte. O espetáculo experimental do dramaturgo português Tiago Torres da Silva, com o ator José Neves, é a montagem internacional que estréia esta noite no 8º Festival de Teatro de Curitiba (FTC).
É o Mar, Alfonsina, É o Mar! não só faz sua primeira apresentação no festival, como no Brasil. Daqui ela segue para São Paulo e Rio. A peça surgiu dentro de um processo se não inovador, pelo menos dentro de parâmetros pouco usuais. O autor descobriu a poeta argentina Alfonsina Storni durante um show da cantora Simone, em Lisboa. Ela cantou Alfonsina e o Mar, e me despertou o interesse para pesquisar sua poesia.
Foram dez anos de pesquisas. Interessado em trabalhar com José Neves - o ator mais importante do teatro português, em sua opinião - o diretor convidou-o para irem ao palco, ensaiar um trabalho que ainda não existia. O texto começou a nascer ali no tablado, nas longas horas de discussão e criação. Por ter nascido no palco, isso lhe dá uma fluidez muito suave, diz Silva.
Ele fez a tradução da poética de Alfonsina Storni, que se suicidou no mar deprimida com o câncer que lhe devorava, no início dos anos 30. Amiga de Garcia Lorca, foi uma das grandes autoras argentinas, embora sua nacionalidade fosse suíça. Nasceu em 1892 em Lagaggia, mas aos quatro anos mudou-se com a família para aquele país.
Mesmo com os poemas em mãos, Tiago Torres não quis trabalhar essencialmente com a obra de Alfonsina. Alguns trechos são utilizados, de forma esparsa e diluídos em suas próprias linhas. O espetáculo traduz-se pelo clima de vida e de morte, com algumas pistas da mulher amada que o homem almeja encontrar.
Sem ter a pretensão de um mero recital, o autor afirma que procura na arte a evolução. E, por ser uma pessoa naturalmente feliz mesmo quando triste, quer que o público sinta que existe a possibilidade de ser feliz sob todas as condições. Essa peça traz a exuberância da felicidade, diz.
José Neves acrescenta que os caminhos se entrecruzam entre o ator e a pessoa. Assim, a sua participação na peça traz o risco de mim mesmo. Ao subir ao palco estaria fazendo exatamente o melhor? A peça foi criada em cinco semanas, diariamente das 14 às 18 horas e das 21 à meia-noite e meia. Não é uma peça estática, ela está sempre em mutação, avisa. Assim como as águas do mar, em imperceptíveis movimentos, sepultando o corpo de uma poeta.


