Arquivo FolhaOsvaldo Montenegro: filho de ‘‘violonista seresteiro’’ só podia dar no que deuRoberto Menescal não se lembra do nome do poeta, um desses anônimos que atrai para si os 15 minutos de efêmera fama e quando some não deixa saudade. O poeta em questão declarou ao ‘‘Jornal do Brasil’’ que as letras de música brasileiras eram paupérrimas. Não podiam ser chamadas de poesias. Graças a essa observação é que surgiu o disco e o show ‘‘Letras Brasileiras’’, com Osvaldo Montenegro e Menescal, cartaz deste sábado no Guairão.
O violonista não gostou nem um pouco do que leu e, aproveitando um encontro casual com o cantor, propôs revidar com uma seleta de canções cujos textos fossem verdadeiros primores poéticos. ‘‘Quase nos afogamos na quantidade de coisas lindas’’, comentou Montenegro.
O projeto foi desenvolvido sem pressa, levou dois anos para ser concluído. A princípio eram somente voz e violão, mas aos poucos Menescal foi incluindo novos temperos. Montenegro lembra:
- Um dia ele pediu que eu escrevesse arranjos para quarteto de cordas, para ‘‘Sem Fantasia’’, de Chico Buarque. Depois chamou a Tânia Maya para uma participação especial nessa música... Começou assim.
Foi aí que o cantor percebeu para onde rumava o disco. Uma obra delicada, feita de avencas e rendas. ‘‘Disco descansado’’, suave, quase seresteiro. Essa linha vai de encontro ao intérprete até porque seu pai é ‘‘violonista seresteiro’’.
‘‘‘Letras Brasileiras me alivia, não sei em quê. Houve nele uma coisa muito sincera e humilde: trocou-se o efeito pela qualidade’’, disse Montenegro à Folha2.
A produção se deu dentro de um clima tranquilo, sem afobação. Roberto Menescal e Osvaldo Montenegro quando se encontravam mostravam um ao outro o que tinham escolhido.
Ben ChairMenescal está entre os nomes mais importantes da música brasileira, foi um dos que contribuiu para colocá-la em pé, no final dos anos 50. O virtuose vem dessa época, quando encantava a juventude dourada da zona sul do Rio.
Continua encantando. Durante a gravação do disco, o instrumentista foi recebido pelo guitarrista americano Ben Chair, que tocava na ópera ‘‘Tommy’’. O espetáculo tinha chegado ao Rio, e aproveitando as horas de folga o festejado guitarrista foi até o estúdio visitar Menescal.
‘‘Foi lindo de ver Ben Chair quase prostrado aos pés de Menescal, tocando violão. Não cobrou um tostão pela participação no disco, executando ‘O Pó’, de
Beto Brasiliense’’, contou Montenegro.
Água PuraO disco lançado recentemente, vem tendo uma aceitação além do esperado. Isso mostra que as pessoas gostam de poesia, opina Montenegro. O show acresce às canções muita conversa entre o violonista e o cantor. Daí Montenegro dizer em suas entrevistas que o espetáculo é como se fosse uma ‘‘varanda’’.
‘‘O papo rola legal. O show pode durar de 1h10 a dois dias’’, afirma. No palco são desfiadas histórias dos compositores, de como as músicas foram escritas. ‘‘‘Letras Brasileiras’ é um pouco a nossa sensação de buscar água pura, aquilo que está acima, que está situado acima dos efeitos, do que é eterno. A gente se afasta do popular para ser o clássico popular’’, completa Osvaldo Montenegro.
‘‘Letras Brasileiras’’, com Osvaldo Montenegro e banda. Participação especial de Roberto Menescal. Participação de Tânia Maya. Hoje, às 21h, no Guairão. Ingressos: R$ 25,00.

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