Poesia com jeito de prosa
Nelson Sato
De Londrina
Chegou a hora do troco. De tanto levarem cacete de um de seus mais afiados detratores, os poetas de rua de Londrina poderão finalmente se vingar. O alvo para o contra-ataque é o livro Preciso Dar um Jeito na Vida, primeiro título de poesia do ator, humorista e escritor Márcio Américo.
O livro foi publicado com patrocínio da Caixa Econômica Federal e ajuda institucional da Prefeitura, Secretaria Municipal de Cultura e Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Traz textos de apresentação de Mário Prata, Mário Bortolotto, Augusto Silva e Alcides Carvalho. A data do lançamento e da sessão de autógrafos ainda não foi definida, embora esteja provisoriamente marcada para o dia 19 desse mês.
Márcio Américo, 35 anos, talvez só perca para o escritor Domingos Pellegrini em matéria de desancar aqueles que passam as tardes tentando vender seus versos no Calçadão de Londrina. Sofremos muito com essa poluição poética diz ele. Poeta, por aqui, virou sinônimo de incompetência profissional. O cara não se dá bem em nenhuma atividade e começa a escrever. Com as raras exceções, é um enxame de poesia inodora e insípida que faz mal aos olhos, nariz e ouvidos e que só serve para afugentar os leitores.
Antes do livro, o autor já havia participado sem alarde de coletâneas. Agora, paralelamente à sua estréia-solo, aguarda a chegada ao público da antologia Doze Poetas, um projeto de livro e CD que vai reunir doze dos autores mais representativos de Londrina com previsão de lançamento para o final do ano.
Desbocado e debochado em iguais proporções, Américo anuncia que seu primeiro livro de poesia será também o último. Poesia dá muito trabalho. Agora vou me dedicar à prosa. Já comecei a escrever uma ficção policial conta. Não por acaso, Preciso Dar um Jeito na Vida traz dois contos espremidos entre 31 poemas.
Na verdade, salienta ele, a forma poética utilizada em seus textos se aproximaria da prosa espontânea dos escritores norte-americanos da geração beat. São poemas que, se colocados na horizontal, ficam parecidos com contos explica. Os poemas, repletos de escárnio e auto-ironia, flagram na maioria das vezes os fracassados, marginais e personagens do submundo com os quais o autor parece se identificar.
Em Dry Londrina, anota: clic clac / saltos lambem a celso garcia / busca de combustível / bruscas falas / grosserias trapaceando diálogos amistosos / a noite desperta / poetas / putas / clockers / sirenes quebram beijos / salve-se quem puder / a gente vai se vê por aí / à noite / todos são meio poetas.
As últimas páginas são dedicadas aos hai kengas, uma alusão torta aos hai-kais e que ele define como poemas-piadas pra serem eternizados em pára-choques de caminhões. O autor atua há mais de quinze anos em teatro, onde começou pelas mãos do professor Antonio Saperas. Montou o grupo Alternativo com Lázaro Câmara e em seguida o grupo Blecaute. Participou ainda, como ator, de cinco espetáculos do grupo Cemitério de Automóveis, dirigido por Mário Bortolotto.
No período de vacas magras, como ele confessa, montou uma peça sobre qualidade total dirigida a empresas. Nos últimos anos, incursionou pelo rádio produzindo gags de humor para várias emissoras. Fui um pioneiro nessa área afirma. No ano passado, inscreveu e classificou um texto-monólogo no Concurso Multishow do Humor Brasileiro, interpretado pelo parceiro Lázaro Câmara. Atualmente, está redigindo um programa também de humor para a Rede TV! (ex-Manchete), previsto para estrear mês que vem.
Seu livro de poesias está à venda a R$ 10,00.





