Poema de Margaret Atwood incluído na publicação
Minha filha está brincando no chão
com letras de plástico,
vermelho, azul & amarelo vivo,
aprendendo a escrever,
conjurando
palavras e sílabas.
Quantas mulheres
se negaram filhas
se fecharam em quartos
e abaixaram as cortinas
para injetar palavras direto na veia.
Um filho não é um poema.
Um poema não é um filho.
Não há isto ou aquilo.
Porém.
Volto à história
da mulher presa na guerra
& surpresa no parto,
as pernas amarradas
para não dar à luz.
Antepassada: a bruxa queimando,
a boca amordaçada
para sufocar a palavra.
Uma palavra depois da outra
depois da outra é poder.
No ponto em que a linguagem se solta
dos ossos queimando, no ponto
em que a rocha se rompe e a escuridão
escorre como sangue, no
ponto de fusão do granito
quando os ossos percebem
que são ocos & a palavra
racha & dobra & fala
a verdade & o teu próprio
corpo se faz boca.
Isto é uma metáfora.
Como se aprende a escrever?
Sangue, céu & sol,
primeiro o teu próprio nome,
a primeira vez que você dá nome, teu primeiro nome,
tua primeira palavra.
(tradução Luiza Franco Moreira)





