Poderosas madonas
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terça-feira, 25 de fevereiro de 1997
Karen Wells Especial para Agência Estado 
DivulgaçãoEvita foi uma mulher terrivelmente incompreendida. Acredito que a gente tende a minar as realizações de todas as mulheres que conquistam certa parcela de poder e influência em nossa sociedade, denegrindo-as de uma maneira, ou vilipendiando suas ações, ou acusando-as de ter usado golpes baixos para subir na vida.LOS ANGELES - Não há nada sobre Madonna hoje que remonte aos termos pop star, diva, provocadora ou símbolo sexual. A nova e suave Madonna usa pouca maquiagem e roupas discretas que revelam uma insignificante barriguinha, evidência do novo papel de mãe.
Sentada ao lado de garrafas de água Evian, ela parece relaxada e feliz. É evidente que a maternidade combina com ela. Embora deixe claro que sua filha não é assunto aberto para discussões, as poucas frases que diz sobre Lourdes Maria são pontilhadas de excitação e orgulho. Mas agora é Evita. Seu outro bebê acabou de nascer. O filme de Alan Parker, que causou espanto, admiração e protestos na Argentina, estréia nesta sexta-feira no Brasil.
Quando anunciado que a rainha da MTV poderia interpretar Eva Perón, pestanas foram levantadas. Estrelas tão diversas como Meryl Streep, Michelle Pfeiffer, Barbra Streisand e Mariah Carey foram sondadas para o papel. Madonna, quer a amem ou a odeiem, acabou levando a melhor.
Evita é uma produção de US$ 60 milhões que reconstitui os últimos três anos da vida de Eva Perón, que morreu de câncer em 1952, aos 33 anos. Originariamente uma história de amor, Madonna estrela o musical ao lado de Antonio Banderas, como o amigo Che, e Jonathan Pryce, como o ditador dos pampas Juan Perón. A semelhança física entre atriz e primeira-dama é impressionante, embora seu desempenho como Evita tenha muito mais ainda em comum com a diva que todos conhecemos bem na última década.
Passando a mão no cabelo, casualmente usado longo, Madonna fala sobre seu processo de entendimento de Evita (intensivamente pesquisado), o amor em comum pelos tailleurs de Christian Dior e a apreciação por homens latinos. A atitude de diva ficou para trás, mas seu humor com ironia e inteligência é ainda mais evidenciado. Madonna não está desapontando desta vez. Confira na entrevista.
Qual foi sua sensação enquanto filmava Evita, já que interpretar a personagem era uma meta que perseguia havia muito tempo?
Madonna - Como se fosse um sonho. Tudo o que estava acontecendo ali naquele momento, o fato de as pessoas estarem protestando contra nossa presença na Argentina, o fato de estar fazendo um filme espelhado no que ocorreu a Eva quando viva. Eu senti como se fosse o destino, me senti muito sortuda, muito embora estivesse exausta, nervosa, melindrada e frustada por todas aquelas coisas.
Qual foi o melhor e o pior aspecto de Eva Perón?
Madonna - O melhor aspecto foi sua coragem. A pior coisa foi ela ter morrido tão jovem.
Quem foi Eva Perón?
Madonna - Acho que ela foi uma mulher terrivelmente incompreendida. Acredito que a gente tende a minar as realizações de todas as mulheres que conquistam certa parcela de poder e influência em nossa sociedade, denegrindo-as de uma maneira, ou vilipendiando suas ações, ou acusando-as de ter usado golpes baixos para subir na vida. Acho que ela foi incompreendida por causa disso. Eva teve uma vida muito dura quando criança e sofreu um bocado porque era pobre e filha ilegítima do pai. O sofrimento dela foi o que realmente a catapultou para o mundo. Quando rica, ficou mais sensível à crueldade e à injustiça em relação aos pobres. E acredito que tenha tentado fazer um mundo melhor para os pobres por causa de sua experiência traumática anterior. Não acredito que ela tenha tido uma boa cabeça para os negócios e acho que usou seu dinheiro de maneira errada. Mas nunca saberemos se ela fraudou o dinheiro do governo e o colocou num banco suíço.
Qual é a coisa que mais guarda em comum com Eva?
Madonna - Um monte de Christian Dior (risos).
Como atriz e ser humano, qual foi o grande desafio emocional que enfrentou ao interpretá-la?
Madonna - Acho que interpretar esse papel enquanto estava na Argentina, quando não éramos benquistos ali, quando lia diariamente no jornal coisas sobre mim. Acho que esse foi o grande desafio emocional. Levantar-me, passar por cima daquilo tudo e ir trabalhar. E tentei tirar proveito da minha situação para compor a personagem porque sei que ela sofreu as mesmas coisas. Nesse sentido, isso me ajudou muito. Toda a controvérsia e negatividade. Tentei me livrar um pouco daquilo e encontrar coisas positivas. Tentei ser real naquele momento e entender os aspectos da vida dela bem perto de meu coração. Meu trabalho foi apenas deixar aquilo fluir.
O que mais a atraiu no comportamento de Eva Perón?
Madonna - Sua tristeza, sua solidão. Ela cresceu sem os pais. Posso entender isso. Quando foi para Buenos Aires não tinha parentes ali, ninguém para abrir uma porta para ela. Basicamente, era uma garota que saiu do nada e teve de lutar para sobreviver. Posso entender isso perfeitamente.
Teve essa personagem como ferramenta emocional?
Madonna - Eu estava exausta no fim das filmagens, emocionalmente e fisicamente falando. Devo dizer que me senti rejuvenescida porque isso foi uma experiência muito educacional.
Qual foi a parte mais difícil da gravação da trilha sonora de Evita?
Madonna - Cantar as canções e tentar estar o mais próxima possível da emoção da personagem. Entramos em estúdio muito antes de o filme ser rodado.
Acha que esse trabalho vai afetar sua produção musical futura?
Madonna - Acho que a educação vocal que tive para interpretar as canções dirigiu minha voz para uma plataforma muito diferente.
Alan Parker disse que o primeiro dia no estúdio gravando a trilha sonora foi péssimo. Como foi para você?
Madonna - Me senti péssima. Terrível. Achei que Andrew Lloyd Weber (autor do musical) iria me chamar e me despedir. Depois, ele foi a meu hotel com Tim Rice (co-autor das letras) e disse que tudo estava ok, que a gente poderia fazer aquela música novamente, mas com orquestração diferente. E foi ótimo na segunda tentativa.


