Em qualquer situação de nossas vidas, quem primeiro se mete para sentir se as coisas estão ‘‘cheirando bem’’, ou não, é o nosso nariz. É ele quem dá o sinal se podemos seguir em frente, ou partir para outra. O nervo olfativo está diretamente ligado ao cérebro e é graças a esta relação tão íntima entre os dois que podemos desenvolver nossa memória olfativa. Os cheiros nos lembram pessoas queridas e momentos agradáveis, ou, ao contrário, situações negativas. Através de aromas, ou perfumes que ativam essa memória olfativa, podemos viajar no tempo e resgatar as melhores lembranças do passado ou trazer para perto de nós coisas inatingíveis, sonhos contidos em frascos de perfume.
O perfume sempre fez parte da história da humanidade e os primeiros perfumistas de que se tem notícia foram os religiosos. O nome ‘‘Par Fumme’’ vem do latim e significa ‘‘pela fumaça’’, usado para identificar os incensos. Na China, Índia e Egito antigo, o incenso era usado para homenagear e se ligar aos deuses. As misturas usadas nestes ‘‘perfumes’’ também tinham propriedades curativas e cicatrizantes. Nas cidades da Idade Média, onde não havia nenhum tipo de saneamento básico, costumava-se queimar bouquets de ervas para suavizar o mau cheiro. Nesta ocasião surgiram os ‘‘pomânderes’’, uma mistura de essências que purificavam a atmosfera e preveniam contra epidemias e pragas.
Durante muito tempo, religiosos e alquimistas guardaram em segredo as fórmulas dos perfumes, privilégio para ser usado apenas por faraós, reis, rainhas e nobres que podiam pagar caro para se envolver em doces aromas que disfarçavam hábitos pouco higiênicos.
Foi só a partir do século XVII, na França, que a perfumaria saiu das mãos de alquimistas e religiosos e começaram a se formar os perfumistas. Na cidade de Grasse, no sul da França, surgiram as primeiras plantações exclusivas para a perfumaria. Os campos de flores e a puríssima água das montanhas, até hoje fazem da cidade o local ideal para as fábricas de perfume. Com o tempo a indústria química se encarregou de popularizar o perfume e atualmente não há quem não tenha eleito o seu aroma predileto como uma espécie de marca pessoal. O que permanece intacto é o poder que os perfumes têm de nos dar acesso ao mundo da fantasia.
Cheiro proibido A base de um perfume é feita de óleos essenciais e extratos de frutas cítricas, flores, folhas e raízes. Toneladas de pétalas de flores são necessárias para a produção de um quilo de essência que pode custar até US$ 12 mil. As quantidades de óleos essenciais puros disponíveis no mercado é sempre inferior às necessidades da indústria. Mas o ingrediente que não pode faltar é justamente aquele que faz as pessoas escolherem determinado perfume: o sonho, o inatingível, o proibido. Na década de 80, nove entre dez mocinhas antenadas usavam ‘‘Ópium’’, de Yves Saint Laurent, que levava para os embalos de sábado à noite um clima de mistério oriental. Ninguém cheirava ópio, mas havia um pouco dele em cada gota colocada estrategicamente atrás da orelha. Nos anos 90 foi a vez de ‘‘Poison’’ (veneno, em francês), de Christian Dior, ‘‘envenenar’’ os narizes mais ousados.
As fragâncias sempre acompanharam as tendências da roupa de cada época, e é por isso que os grandes alquimistas agora são os estilistas, que rezam a cartilha às devotas da moda. Neste final de milênio tudo o que é excêntrico ou está em vias de extinção entra na receita dos últimos lançamentos. A mais nova onda são as águas perfumadas, ou simplesmente eau , do francês água. São perfumes à base de citros, com elementos que lembram o cheiro do mar e especialmente de ozone. A preciosa substância que envolve o planeta é a preferida dos mais modernos cheirosos para lhes envolver a aura. Frutas exóticas (não para nós, mas para os europeus), como o côco e o maracujá também tem boa aceitação e fazem parte do cheiro tropical de ‘‘Jungle’’, último perfume do costureiro Kenzo.
E como na alta costura, cada detalhe é puro luxo, os frascos são um delírio. O corpo da Madonna moldado em cristal ‘‘lalique’’ guarda o primeiro perfume do costureiro da própria, Jean Paul Gaultier. Alguns vidros lembram esponjas do mar e estrelas. Outros, são como caixas de jóias. Nada mais adequado para embalar sonhos.

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