Abrindo um ano em que as mais esperadas estreias cinematográficas são fruto de adaptações - como o final da trilogia do Batman e o primeiro filme ''O Hobbit'', de J.R.R. Tolkien -, o primeiro grande sucesso de público nos cinemas é o longa ''Os Vingadores'', adaptação cinematográfica dos quadrinhos criados em 1963, por Stan Lee. Com status de blockbuster, o filme já alcançou o primeiro lugar na bilheteria mundial, e se consolida para ter uma das maiores rendas do ano no cinema.
Com uma arrecadação de U$ 170 milhões em sua semana de estreia, a história dos Vingadores combina os poderes das super-bilheterias dos heróis Homem de Ferro, Thor, Viúva Negra, Capitão América e Hulk, em uma das mais ousadas (e planejadas) adaptações de quadrinhos na história do cinema. Unindo forças desde 2008 - quando o primeiro filme do Homem de Ferro foi lançado - o lançamento faz parte de um projeto multimilionário, envolvendo o lançamento de oito filmes 'solo' de cada um dos personagens, que serviram como uma espécie de prefácio para o começo da nova série. O esforço valeu a pena: o filme já é aclamado pelo público e pela crítica como um dos melhores da safra de adaptações dos quadrinhos.
Entre sucessos fantásticos e fracassos retumbantes nos cinemas, não existe como ignorar o impacto que as HQs criaram dentro do universo pop na última década. Depois que as histórias de suas páginas foram redescobertas por Hollywood, o interesse pelos quadrinhos foi renovado, especialmente pelo público jovem. A febre começou no ano 2000, com o enorme sucesso mercadológico do filme X-Men (2000), que deu sinal verde para várias franquias, lançadas especialmente com o objetivo de renovar velhos heróis para serem protagonistas na tela grande (Homem-Aranha, Hulk, Batman, Motoqueiro Fantasma e Lanterna Verde, entre outros). A estratégia também rendeu dezenas de spin-offs (Wolverine, Mulher-Gato) e filmes de HQs destinados para o público adulto (Constantine, Watchmen).
Ganhando vida nas telas, o interesse pelas histórias em quadrinhos também foi reanimado nas páginas das revistas, e o reflexo disso é a popularização de convenções e eventos de gênero: realizada em Belo Horizonte no ano passado, a última edição do FIQ! (Festival Internacional de Quadrinhos) reuniu mais de 148 mil pessoas, estabelecendo um novo recorde de público no Brasil. ''É inegável que o sucesso das bilheterias foi uma injeção de ânimo e deu novas perspectivas para o mercado, especialmente para as publicações de super-heróis, que vinham definhando porque os leitores não haviam se renovado com facilidade, como em décadas anteriores'', analisa o jornalista Cláudio Yuge, especialista no universo das HQs. ''Acho que o público reconheceu o núcleo que fez desses personagens um sucesso editorial, e as editoras também começaram a compreender melhor sua audiência, em todas as mídias'', reflete.
''Existe um interesse que surge sempre que algum filme é lançado, isso dá uma força sim, sem dúvida'', concorda Eduardo Baggio, proprietário da Bat Hobby Shop, tradicional loja de quadrinhos em Londrina. ''Antes, o mercado de impressões aparentemente estava em queda, não só aqui no Brasil, como em todo o mundo. Mas acho que isso é culpa também dos roteiros, que não estavam agradando aos leitores'', opina.

Nova geração
Com interesse renovado por suas histórias, a nova 'onda' dos quadrinhos vem ganhando força, revelando para o grande público as nuances de um universo artístico que antes era praticamente inexplorado pela maioria. ''Existem basicamente três tipos de HQs: as infantis, as juvenis e as adultas. Um filme, como o dos 'Vingadores', é feito para atingir um público juvenil/adulto'', explica Eduardo Baggio, ressaltando a variedade imensa de gêneros que podem ser encontrados em lojas especializadas. ''Hoje, quando penso em ler uma história em quadrinhos, procuro o mesmo sentimento de quando vou ler um livro. Com a diferença que o desenho está lá, para complementar o enredo'', reflete.
''Os quadrinhos podem usar recursos da literatura e das artes gráficas, e oferecer essa narrativa pra explorar vários sentidos e sensações'', analisa Cláudio Yuge, dissecando as peculiariedades da chamada Nona Arte. ''Com a visão, você absorve todos os outros sentidos, em uma narrativa que te propõe um exercício mental de imaginação constante, entre os 'espaços em branco' de cada sequência'', complementa.
Mas qual a melhor forma de um iniciante começar sua jornada pelas linhas dos quadrinhos? ''Há quadrinhos para todos'', explica Yuge. ''As pessoas costumam ter a ideia de que quadrinhos são só Turma da Mônica. É um bom primeiro passo, mas você considera só 'A Moreninha' como leitura durante toda a vida? Ou só viu 'ET - O Extraterrestre' até hoje?'', indaga o jornalista. ''Pois é, vale do interesse de cada um buscar uma leitura com mais texturas. Um novato deveria ler Calvin & Haroldo, Tintim e o super-herói de sua preferência. Acho que é um bom caminho pra seguir a partir daí'', completa.

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