Uma luva. ''Todo Poderoso'', que estréia hoje no país (veja programação na página 2) em circuito ainda meio estrangulado pela superexposição das segundas partes de ''Matrix''e ''X-Men'' é a espalhafatosa, justa metáfora para o que tem sido a carreira do cômico Jim Carrey. E como qualquer outro filme com o ator, ''Todo Poderoso'' vai dividir platéias. Uma das facções vai saudar seu retorno ao pastelão ultrajante, outra vai uma vez mais abominar a cara elástica do Ace Ventura, embora pagando o ingresso - no box office americano, um esmagador fim de semana de abertura, com 85 milhões de dólares que há duas semanas sacudiram a até então tranquila hegemonia de ''Matrix Reloaded''.
Bruce (Carrey) é repórter televisivo em uma rede local de Buffalo, Nova York, onde se ocupa da crônica mundana exibindo um estilo que faz dele mais um showman do que um jornalista de verdade. Insatisfeito com o trabalho, e consequentemente com a vida, ele tem esperança de um dia substituir o velho âncora da emissora, já próximo da aposentadoria. Mas Bruce tem um feroz concorrente ao cargo (Steven Carrell) e logo recebe a notícia de que o lugar é do outro. Acometido de uma crise nervosa - quase uma redundância, na galeria de personagens vividos pelo ator -, ele demonstra sua contrariedade ao vivo, diante de milhões de telespectadores. A demissão imediata complica ainda mais as coisas, estremecendo também o relacionamento com a noiva, Grace (Jennifer Aniston). Resta então praguejar contra Deus (Morgan Freeman), que coincidentemente está à escuta dos impropérios de Bruce. Num rasgo de irônica onipotência, Ele delega ao infeliz repórter poderes ilimitados, duráveis enquanto sai de férias.
Embora a princípio estupefato com a novidade, Bruce logo vai descobrir como é divertido substituir a divindade. Não apenas e finalmente pode ter seu cachorro bem adestrado para fazer as necessidades dentro de casa, como também pode dar o troco no arqui-rival jornalista e ainda satisfazer a namorada com um orgasmo de uma hora num piscar de olhos. Sem mencionar a chuva de meteoros, por mero capricho, e literalmente a Lua dada de presente a Grace, com inevitáveis consequências na tábua de marés do planeta. Mas como já dizia o Homem-Aranha, ''grande poder gera grande responsabilidade''.
Bruce parte para resolver problemas comunitários, na verdade de toda a cidade de Buffalo. E logo os resultados serão desastrosos.
O potencial para uma iconoclastia pesada era palpável, mas ''Bruce Almighty'' nunca chega lá. O roteiro é muito preguiçoso e incoerente - afinal, blasfêmia considerável necessita cérebro e rigor na mesma medida. E enquanto o filme falha como uma confusa e barulhenta sátira teológica ou mesmo burlesca, o argumento convence e funciona como uma metáfora para a própria carreira de Jim Carrey. Na pele de Ace Ventura ou O Máscara, ele pode ser um furacão, um manancial de habilidosos recursos de comédia física. O ator, quando quer, sabe ser onipotente no seu ofício - há pelo menos meia hora entre inspiração e transpiração (ele é melhor quando transpira) quando Bruce está investido com os tais poderes celestiais. Mas então o diretor Tom Shadyac e o roteirista Steve Odekerk voltam a cair em tentação, acendem aquela outra vela e ''Todo Poderoso'' é conduzido para aquele terreno lambuzado de sentimentalismo de ''Patch Adams - O Amor é Contagioso'', em que a mistura da comédia rasgada com filosofice resulta insuportável. Esse tipo de desvio em busca da ''seriedade'' é que vem desestabilizando a trajetória de Carrey, como de resto complicou também a definição artística de Robin Williams. Ao que tudo vem indicando, o ator parece imobilizado entre a vontade de ser o novo Jerry Lewis e a tentação de reviver o divertido e edificante James Stewart. Por outro lado, há quem jure que jamais será um ou outro.

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