Vender saúde, beleza e juventude está na ordem do dia da televisão. No entanto, a teledramaturgia passa por um momento de redescoberta e desenvolvimento de um contraponto: a valorização de histórias onde personagens de destaque vivem de forma satisfatória na terceira idade. Antes restritos à figura de avós ou tramas melancólicas evidenciando o quão fugaz é o tempo, novelas e seriados passaram a abordar a velhice de forma mais otimista ou mais próxima do que acontece fora da ficção. "O núcleo mais velho sempre teve peso nas minhas tramas. Pelo talento e experiência dos atores, existe a confiança de que essas cenas segurem a dramaturgia da obra. Só que agora eles não ficam apenas apoiando a mocinha. De repente, os dilemas dos mais velhos podem chamar mais atenção e está tudo bem", defende Gilberto Braga, autor de "Babilônia".
Mesmo com Adriana Esteves e Gloria Pires como vilãs, desde o início da atual trama das nove, é o núcleo de Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro que protagoniza as cenas mais emocionantes do folhetim. Muito disso deve-se ao fato de a dupla interpretar um casal de idosas. "A surpresa geral nem foi por conta das personagens serem lésbicas, mas por serem velhas. Subverter a imagem tradicional é algo que ainda choca, mas que deveria ser tratado com naturalidade", acredita Timberg, aos 85 anos. Também nascida em 1929, Fernanda Montenegro se destaca ao se manter ativa e prestigiada na televisão. Antes da atual novela das nove, ao lado de Tarcísio Meira, foi uma das protagonistas do "remake" de "Saramandaia", de 2013, e a estrela do seriado "Doce de Mãe". "A televisão exerce um fascínio inigualável sobre a terceira idade. Todos amadureceram vendo as novelas. Acho importante afagar essa parte importante da audiência e dar aos atores mais velhos a chance de continuar a trabalhar, mas de forma instigante", analisa.
Outros produtos recentes também valorizam amores e dissabores da terceira idade. Em "Os Experientes", por exemplo, doenças comuns de quem já passou dos 70 anos, como mal de Alzheimer, artrite, artrose e outras, convivem dramaturgicamente com questões como amor, receios da vida, inveja e objetivos futuros. "Nossa cultura é obcecada pela juventude e os velhos tendem a ser colocados de lado como se não tivessem mais nada a dizer. Pela falta de uma visão mais experiente, temos optado muitas vezes por caminhos tolos e infantis", avalia Fernando Meirelles, diretor de "Os Experientes". Para dar relevância e peso ao trabalho, ele convidou atores como Joana Fomm, de 74 anos, Juca de Oliveira, de 80 anos, e Beatriz Segall, de 88 anos, para os papéis principais.
Sem tanta tradição na teledramaturgia, a TV Brasil se prepara para investir no "filão" da terceira idade com "República do Peru". Em fase de gravações e com previsão de exibição para o ano que vem, a série conta a história de quatro mulheres que já passaram dos 70 anos e vivem juntas. "É quase um 'Sex and The City' septuagenário", brinca Lady Francisco, que divide o protagonismo da produção com Monique Lafond, Lúcia Alves e Dhu Moraes. Entre as temáticas da produção, estão a descoberta de novos paixões e a valorização da mulher ao longo dos anos. "Chegar na terceira idade discutindo assuntos do meu cotidiano na televisão é algo muito interessante. Passar dos 70 anos e continuar trabalhando é o sonho de qualquer atriz", valoriza Lafond.

OUTRAS NUANCES

Mocinhas nas décadas de 1960 e 1970, Regina Duarte, de 68 anos, e Susana Vieira, de 72, já estão na terceira idade, mas ainda imprimem e vivem na tevê histórias de mulheres cerca de 20 anos mais jovens. O consenso entre as duas atrizes reside na oferta de personagens cada vez mais complexas com o passar dos anos. "Me repeti algumas vezes ao longo da carreira. A maturidade fez autores e diretores olharem para mim de modo mais sério e diferente", conta Regina, que hoje vive a solitária Esther, de "Sete Vidas".
Susana Vieira se mostra feliz com o aumento da densidade de seus papéis. E encarou a chegada dos 70 anos sem medo. "Não posso fazer nada. O tempo passa mesmo e a gente vai aprendendo a se adaptar", valoriza. Já escalada para "Favela Chique", próxima trama das nove, a atriz credita o fato de interpretar mulheres mais jovens na ficção ao seu jeito de viver. "Me sinto lisonjeada em viver mulheres mais novas. Aceito minha idade, mas, definitivamente, me sinto mais jovem do que sou", gaba-se.

mockup