Clint Eastwood: história traça caminhos inverossímeis, como num bom folhetimClint Eastwood, quem diria, acabou fazendo papel de ladrão. Claro, ladrão charmoso, de bons princípios, leal, bom chefe de família. Mesmo assim, ladrão. O filme chama-se Poder Absoluto (em cartaz no Cine Crystal Plaza 4, em Curitiba) e é dirigido e interpretado pelo bom e velho Clint. Tem encanto, diga-se. Ator de poucos recursos, mas de figura marcante, dirige de jeito consistente. Alguns dos seus mais recentes trabalhos são bem interessantes, como são os casos de Um Mundo Perfeito e o melodramático Pontes de Madison. Com Os Imperdoáveis, reabilitou o western, gênero que parecia condenado à extinção. Enfim, um cara de talento.
Em Poder Absoluto ele é Luther Whitney, amigo do alheio, cheio de truques, competência e estilo. Um dia ele se encontra em plena função numa casa milionária. Quando está se apoderando de alguns bens nada negligenciáveis, escuta ruídos. Sem dar por ele, chega a dona da casa, acompanhada de alguém que não é o marido. O parceiro dela é ninguém menos que o presidente Richmond (Gene Hackman), em pleno ato de prevaricação. Luther torna-se testemunha involuntária de algo estarrecedor. Entra em crise de consciência. Deve seguir seu anônimo e profícuo caminho como amigo do alheio ou curvar-se aos deveres do cidadão? Esse drama de consciência é agravado pelo fato da filha de Luther, talvez em represália ao pai (Freud explica, ou tenta), decidiu trilhar o caminho do bem e se tornou uma rígida promotora.
FolhetimPor aí se vê por onde caminha o filme. A história chega ao espectador pontilhada desses detalhes meio inverossímeis. Daqueles que exigem mais do que complacência por parte de quem está assistindo. Pede-se, na verdade, a mais absoluta credulidade ao público. Ok, é o que ocorre nas novelas de TV e faz a base da antiga literatura de folhetim. Irmãos que seduzem irmãs sem se dar conta do incesto; gêmeos separados pelo destino, que depois se reencontram; pais que se reconciliam com as ovelhas negras da família, etc. A trama bebe nessa fonte folhetinesca e não faz força para disfarçar.
As qualidades do filme devem ser buscadas em outra parte. Clint, já se disse, é sólido como diretor. Constrói planos e sequências com senso de timing. Um plano segue-se ao outro com fluidez. Ok, isso é papo técnico. O que interessa: o resultado, aquilo que bate na tela, seduz o espectador. Mesmo sabendo que a história é um pouco besta, fica difícil distrair-se e afastar a atenção do que está passando na tela. Isso é resultado da experiência acumulada da indústria. Fazer um filme direito mesmo que os elementos disponíveis sejam pobres.
E nem é esse exatamente o caso de Poder Absoluto. Se a estrutura do enredo é convencional, alguns aspectos do tratamento não são. Por exemplo, é difícil encontrar em filmes comerciais americanos uma visão minimamente soturna do poder político. Ao contrário, tudo conflui, ideologicamente, na versão benigna do Estado, encarnado em seu chefe. São os casos recentes (e gritantes) de Independence Day e Força Aérea Um. Nos dois, o presidente americano é retratado como um Indiana Jones, intrépido a zelar por seu povo. O presidente Richmond, muito bem interpretado por Gene Hackman, é o oposto dessas idealizações: malévolo, falso, frágil, vicioso, covarde.
A sociedade como um todo é vista como corrupta neste filme que relembra em certos momentos o clima do antigo cinema noir. Pena que Clint não leve essas premissas às consequências necessárias. Aqui e ali (mas, no fundo, em pontos vitais) o machão vacila e acaba contemporizando. Se o poder político não é confiável, sempre resta a família como reserva moral a que se pode recorrer. Mesmo para um ladrão. No fundo, essa ‘‘exceção familiar’’ (o mundo é pernicioso; dentro de casa estamos seguros) é um dos ingredientes sagrados do ideário individualista norte-americano, do qual Clint é defensor como poucos. Não há nele nenhuma disposição subversiva. Levando isso em conta, deve-se constatar que Poder Absoluto vai até mais longe do que seria lícito esperar.

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