PLUMA AO VENTO
Realismo fantástico na discussão da miséria humana é a proposta do grupo equatoriano Malayerba
Telma Elorza
DivulgaçãoCena de ‘‘Pluma e a Tempestade Destes Tempos’’: baseado em contos populares andinos, espetáculo mostra multiplicidade de personagensUm ser fantástico, nem homem nem mulher mas com características dos dois, que vagueia na noite, sem amor, sem rumo, sem razão de ser e sem princípios. Este é o tema de ‘‘Pluma e a Tempestade Destes Tempos’’ que o grupo equatoriano Malayerba apresenta de hoje até sábado, no Espaço Alternativo, dentro do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Com autoria do argentino Aristides Vargas, diretor do grupo, ‘‘Pluma’’ é baseado em contos populares andinos e traz todos os elementos do realismo fantástico tão presentes na literatura latino-americana. No palco, 10 atores dividem-se e multiplicam-se em dezenas de personagens espelhados nas misérias humanas - materiais ou espirituais. Pluma, o personagem central, é vivido por Carmen Vicente e Gerson Guerra, que revezam-se nas aventuras deste ser andrógino, nascido e feito adulto em uma única noite, engendrado na violência. ‘‘Ele nasce sem referências e, em questão de segundos, cresce. A partir de então encontra pessoas reais, entrando em contato com valores desordenados que não são os seus, já que ele não tem nenhum’’ - diz Vargas.
Segundo a atriz espanhola Chiaro Frances, o espetáculo trata dos personagens marginalizados, que podem estar nas ruas de Quito, São Paulo ou Nova York, na miséria que não tem ética, nem poder nem amor, no sentido de estruturação como pessoa com rumos e objetivos. ‘‘Os meninos de rua, como têm expostas as roupas rasgadas, também têm a alma dilacerada pela falta de solidariedade. Em Pluma, a gente mostra isto, que as relações humanas se dão por interesses econômicos, onde o vínculo é o dinheiro’’ - explica.
Numa linguagem direta e ao mesmo tempo complexa, poética na maneira de apresentar sua simbologia, o grupo fala da marginalidade e da miséria humana, de uma forma política sem ser um espetáculo politizado. ‘‘Pluma questiona como é viver numa sociedade, questiona a legitimidade da época e dos discursos. Mesmo não tendo moral, ele tem uma consciência moral’’ - aponta Vargas.
Com poucos elementos cênicos e uma perfeita ocupação do espaço, o grupo faz o teatro rigoroso, onde a força está no trabalho do ator. ‘‘Fazemos teatro, não espetáculo, não demonstração de tecnologias’’ - diz Chiaro. A frase pode até parecer presunção, mas como um dos grupos mais instigantes do cenário teatral latino-americano, o Malayerba pode afirmar algo do gênero.
Nascido de uma proposta de três atores estrangeiros no Equador - dois ainda estão no grupo, o hoje diretor e Chiaro - em 1978, o grupo não segue uma escola teatral, trabalhando com vários dramaturgos e todos os grandes mestres que lhe dêem liberdade individual de criar.
‘‘Pluma e a Tempestade Destes Tempos’’ - com o grupo equatoriano Malayerba, de hoje até sábado, no Espaço Alternativo 1 (Rua Quintino Bocaiúva esquina com Benjamin Constant), em Londrina. Ingressos a R$ 10. Estudantes, idosos e funcionários da Universidade Estadual de Londrina pagam R$ 5.

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