Plínio Marcos lança livro com três contos
São Paulo, 10 (AE) - O reconhecido talento do dramaturgo Plínio Marcos para retratar o brasileiro marginalizado valeu-lhe muitos prêmios e elogios ao longo da vida, mas também muita perseguição por parte da censura e ainda a rejeição de quem prefere fechar os olhos para uma realidade não muito palatável. No entanto, engana-se quem associa Plínio Marcos apenas ao universo barra-pesada retratado em peças como "Barrela, Navalha na Carne" e "Dois Perdidos numa Noite Suja".
Aos 63 anos, recuperando-se de um recente problema de saúde, Plínio Marcos continua sendo antes de mais nada um grande contador de casos, com apurado senso de humor. Muito apreciada pelos amigos, essa faceta poderá agora ser compartilhada com um público mais amplo no livro "O Truque dos Espelhos" (111 págs. R$ 15).
Publicado pela Una Editora, com lançamento previsto para o dia 27, no restaurante Gigetto, em São Paulo, o livro reúne três contos: "O Truque dos Espelhos, Os Filhos do Vento e O Homem do Caminho". O local escolhido para o lançamento não poderia ser mais apropriado, afinal, como diz sua mulher, a jornalista Vera Artaxo, no prefácio do volume, o restaurante paulistano é uma espécie de extensão de sua casa.
Ali, onde o casal janta todas as noites, mestre em entreter uma roda de amigos, ele costuma animar a mesa contando histórias. Quem conta um conto, aumenta um ponto, dizem. E quando o contador é talentoso, a platéia chega a torcer para ouvir a mesma história, saboreando os acréscimos da noite. E foi depois de muito escutar o caso de "O Truque dos Espelhos" que Vera insistiu para que o dramaturgo o colocasse no papel.
"A princípio planejávamos editar algumas crônicas publicadas em jornais e revistas ou em livros há muito tempo esgotados", diz Vera. "Queria que ele desenvolve histórias de pequenos artistas, como de Nini da Liberdade, um faxineiro fã de Carmem Miranda, que se soltava no carnaval, ou de Bereco, o jogador de sinuca."
A idéia inicial ganhou novo rumo em janeiro, quando o casal passou uma temporada recolhido numa casa de praia. Sem a dispersão dos amigos, Plínio resolveu escrever uma das histórias repetidas em bar e o resultado foi um conto de fôlego, com personagens bem definidos e uma trama cheia de suspense. Um daqueles contos que o leitor não consegue largar até o desfecho. O ponto de partida foi a história de uma mulher muito gorda que resolve tornar-se partner de um aprendiz de mágico no famoso truque da mulher decapitada, realizado com "frágeis" e "quebráveis" espelhos. Claro que não dá certo. Mas o "caso" inicial ganhou riqueza e profundidade.
Além da ser leitura prazerosa, o conto serve para conhecer um pouco mais do pensamento do autor, já que possuiu muitos traços autobiográficos. A história é narrada pelo palhaço Frajola, o mesmo nome artístico adotado por Plínio Marcos quando trabalhava no circo em Santos. Foi ali, em 1958, que Patrícia Galvão, a Pagu, musa da Semana de Arte Moderna de 22 o conheceu. "Santos nessa época vivia um período cultural efervescente, havia saraus, leituras dramáticas e Plínio participava disso tudo", lembra Vera.
Foi para Pagu que Plínio Marcos entregou o texto de sua primeira peça, "Barrela". Indignado com a história real de um adolescente preso por um delito leve e estuprado na cadeia pelos outros detentos, escreveu a peça num só fôlego, imediatamente considerada genial. Com o tempo a imagem de Plínio ficaria muito associada aos marginais, quando na verdade sua identificação inicial de autor foi com o garoto, de família remediada como a sua.
"Meus irmãos estudaram e eu também fui para a escola, mas era canhoto e os professores obrigavam-me a escrever com a mão direita e isso era tão angustiante que deixei de estudar", lembra Plínio. A falta de um diploma, a necessidade de trabalhar e, claro, a alma de cigano do dramaturgo o levaram a diversas profissões, como palhaço, estivador e camelô.
O conto "O Homem do Caminho" é menos que um conto, é quase uma ode a essa alma cigana, essa compulsão para ser livre, em oposição ao homem "prego", o que se fixa. Já "Os Filhos do Vento" foi escrito a partir do caso do mágico que magnetizava as pessoas e acabou preso por hipnotizar a mulher do delegado. Mas também tem muito de autobiográfico. O dono do circo Ricardino e sua mulher Cora existiram e foram importantes na vida do autor. O circo viajou para a Argentina quando uma lei federal proibiu o hipnotismo no picadeiro. Plínio ficou e, em breve, alcançaria enorme popularidade como ator no papel de Vitório na novela Beto Rockfeller.
"O Truque dos Espelhos" oferece ao leitor uma ótima oportunidade de conhecer melhor a vida do dramaturgo, cuja obra volta a chamar atenção nos palcos da cidade. "Barrela", com direção de Sérgio Ferrara, está em temporada no Teatro de Arena, assim como "Navalha na Carne", na ótima montagem do Grupo Tapa.





