PLÍNIO MARCOS EM TRÊS CONTOS
Jackeline Seglin
De Londrina
Ao sentar numa roda de amigos, não há quem não se divirta com as histórias que ele conta. E são muitas. Ele é um dos mais importantes dramaturgos brasileiros da atualidade e sabe, como ninguém, usar da simplicidade e do humor para falar das coisas duras da vida. Depois de quase um ano sem editar um trabalho, o autor Plínio Marcos resolveu colocar no papel algumas dessas histórias. Ele lança hoje, em São Paulo, o livro de contos O Truque dos Espelhos. O local para a festa não poderia ser outro: o restaurante Gigetto, onde ele e a mulher, a jornalista Vera Artaxo, há anos jantam todas as noites.
Recuperando-se de um problema de saúde que para ele foi um sustão , Plínio Marcos diz que está quase bom e que é presença garantida na festa de hoje à noite. Em entrevista por telefone à Folha 2, antecipou um pouco do que relata no livro, publicado pela Editora Una. Aos 63 anos, a figurinha difícil tão conhecida por suas histórias sobre a marginalidade brasileira mostra agora o lado divertido, mas não menos doloroso, da luta pela sobrevivência de artistas que conviveram com ele.
A história de O Truque dos Espelhos é sobre o palhaço Frajola o mesmo nome adotado por Plínio Marcos quando ele fazia parte do circo e Chibah, uma espécie de faz tudo de um circo falido. A dupla conhece um mágico que conta as glórias que teve pelo mundo graças ao baú enorme que sempre carrega com ele. Convencidos das maravilhas do segredo da caixa o truque da mulher sem cabeça os dois compram o baú com o dinheiro da namorada de Chibah, a Gorda Lúcia, que torna-se partner do aprendiz de mágico. Os três viajam para fazer o show e no caminho passam por muitos apuros.
Depois da aventura, Frajola vai parar em São Paulo. É quando começa a segunda história, Os Filhos do Vento. O palhaço conhece o artista de circo Ricardino e sua mulher Cora e, com eles, aprende a hipnotizar e a ler tarô. Em uma das apresentações, os artistas chamam ao palco uma mulher, que somente depois descobrem ser a esposa do delegado. Estavam proibidos em todo o território nacional o magnetismo e o hipnotismo. É a primeira vez que Frajola ouve falar em censura, conta Vera Artaxo.
O circo viajou para a Argentina e o palhaço voltou para Santos, onde conheceu o cigano, Iur, personagem do conto final, O Homem do Caminho, que também tem a versão monólogo. Nesta história, Frajola conta a aventura do andarilho para cumprir uma missão numa viagem por 25 cidades brasileiras. É o mundo do palhaço Frajola. O mundo de Plínio Marcos.
Neste último ano em que ficou sem escrever livros não esquecendo que ele é colaborador em diversos jornais e revistas o autor viajou, deu palestras sempre no melhor estilo bate-papo e assistiu a várias montagens de suas peças. As últimas coisas que fez antes desse livro foi reescrever Chico Viola, um musical que ele tinha perdido, O Bote da Loba e O Homem do Caminho. Foi uma produção meio simultânea, lembra Vera Artaxo. Agora, o autor já pensa em escrever uma peça infantil e um livro juvenil. A seguir, leia trechos da entrevista com Plínio Marcos:
Como surgiu a idéia de escrever esse livro de contos?
São histórias que eu conto sempre sobre circo, essas coisas. Como eu comecei a minha vida, o que eu passei, as artimanhas, as encrencas, que foram muitas... Todas falam da luta pela sobrevivência quando você está na pior.
São contos autobiográficos?
São memórias seletivas, em que conto histórias do tempo que a gente andava por aí. E eu era malandrinho, né? (risos)
Por que você escolheu o restaurante Gigetto para o lançamento?
É o ponto em que eu paro, né. No Gigetto eu paro há 20 anos. No tempo da ditadura, eles me davam de graça a comida. Isso beneficiava o meu viver. Eles são muito amigos, generosos, e resolveram fazer essa festa. Vão dar um coquetel, uma porção de coisas.
Você escreveu o livro...
Na praia, em Santos, no começo do ano. A Vera é que incentivou, porque eu contava sempre as histórias e nunca punha no papel. E ela pressionou, pressionou e eu pus. E agora já estamos tramando para levar uma das histórias para Portugal.
Você usa o computador para escrever?
Não. Escrevo à mão. E ela (Vera) passa tudo para o computador. Estou escrevendo uma série de histórias sobre o Jabaquara meu time de criança e eu faço na mão, na velha mão.
E esse material vai ser lançado quando?
No fim do ano. É uma série de histórias. Um grupo de pessoas que está fazendo uma coletânea sobre o próprio Jabaquara. A gente vai contar essa história.
Você assistiu às últimas estréias de suas peças em São Paulo?
Sim e são ótimas! Navalha na Carne (com o grupo Tapa), está muito boa; Barrela (direção de Sérgio Ferrara), excelente! Barrela eu gostei mais. É uma peça que tem 41 anos. Foi a que ficou mais tempo proibida. Aliás, acho que foi a peça brasileira que ficou mais tempo proibida. E é tão bonita!
O Truque dos Espelhos, livro de contos de Plínio Marcos. Lançamento: hoje, em São Paulo. Editora Una, 111 páginas. Preço: R$ 15,00.





