PLACIDEZ QUE ATORDOA
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sexta-feira, 08 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
A sonoridade bucólica, com inclinações para a folk music, anda em alta. O Cat Power, pseudônimo da cantora e compositora norte-americana Chan Marshall, desponta como uma das boas revelações da tendência.
Cultuada no meio alternativo, a garota tem agora seus três últimos discos lançados de uma só vez no mercado brasileiro. O milagre só foi possível graças ao licenciamento dos títulos do selo Matador para a gravadora Trama, cujo contrato vem abastecendo as lojas com CDs do Pavement, Yo La Tengo e outros indies ilustres.
Indigesta para os padrões radiofônicos, Cat Power soa melancólica e arrastada na maioria das canções, nas quais é acompanhada apenas por uma guitarra dedilhada e eventualmente um piano e uma bateria. O timbre de sua voz remete a Suzanne Vega, só que mais visceral. Moon Pix, o álbum de 98, é o destaque do pacote trazendo um carrossel de belas canções, preciosidades como American Flag, You May Know Him, No Sense e Cross Bones Style.
O disco foi gravado na Austrália com participação de membros do Dirty Three, grupo que costuma colaborar com o cantor Nick Cave. A curiosidade fica por conta da faixa Moonshiner, cujo crédito no encarte traz a confissão inspirada em Bob Dylan acompanhada de uma foto do compositor. Dylan comparece também em The Covers Record, o disco desse ano, no qual ela reinterpreta duas canções do ídolo: Paths Of Victory e Kingsport Town.
Como revela o título do CD, nesta temporada Cat Power deixou de lado suas próprias composições para reler gravações alheias. É surpreendente sua versão contida do clássico (I Cant Get No) Satisfaction, dos Stones, do qual suprimiu o riff e imolou o refrão apagando todo o apelo familiar da canção. É o caso de perguntar se Jagger e Richards reconheceram a cria.
Cat Power revisita ainda, entre outras, Sea of Love (gravada por Phil Phillips e mais recentemente por Robert Plant), I Found A Reason (Velvet Underground), Naked If I Want To (da banda californiana dos anos 60 Moby Grape) e Wild is the Wind (famosa no voz da diva Nina Simone). Já o CD What Would The Community Think, de 96, traz a moça mais nublada do que nunca em doze faixas acústicas, onde é acompanhada pelo baterista Steve Shelley (do Sonic Youth) e o guitarrista Tim Foljahn (do Two Dollars). É tanta placidez que atordoa.


