Divulgação‘‘Do Fundo do Lago Escuro’’: sem grandes ousadias cênicas, mas apostando no talento dos atores e na composição harmoniosa dos figurinosDepois de mudar, com apenas pouco mais de 24 horas de antecedência, sua data de estréia, a peça ‘‘Do Fundo do Lago Escuro’’, uma das mais aguardadas desta sexta edição do Festival do Teatro de Curitiba, finalmente sobe ao palco hoje, em montagem do Grupo Tapa.
Serão duas apresentações - uma às 17h, outra às 20h. Segundo o diretor Eduardo Tolentino, a estréia foi adiada por ‘problemas técnicos’. Na verdade, o grupo foi impedido de ensaiar, na quinta-feira, por causa da formatura da turma de Letras da Faculdade Tuiuti, que aconteceu naquela noite. O teatro já havia assinado, no ano passado, contrato com a empresa Políndia, responsável pela organização da formatura. Montagem de equipamentos para a solenidade, durante todo o dia, impossibilitaram o acesso dos atores ao teatro Fernanda Montenegro, impedindo os ensaios.
‘‘Do Fundo do Lago’’, de autoria de Domingos de Oliveira, traça a trajetória de uma família que poderia ser qualquer família brasileira de classe média alta, na década de 50. No universo destes personagens, com o qual o espectador acaba se identificando (que criança não espiou pelo buraco da fechadura os encontros dos empregados, que família não conheceu uma sogra autoritária, quem não teve um tio problemático e bêbado?), há uma tentativa de dissimular tudo. Varrer a poeira para debaixo do tapete.
Talento Beatriz Segall lidera o elenco de dez personagens, tendo como pano de fundo a polarização política entre o governo de Getúlio Vargas e a oposição de Carlos Lacerda. Sob a aparente placidez (a superfície do lago), estão emoções, desordem e desregramento (o lodo do fundo) sempre contidos, negados, banidos, ‘‘para evitar o sofrimento’’.
Sem grandes ousadias cênicas, ‘‘Do Fundo do Lago Escuro’’ aposta muito mais no talento dos atores e na composição harmoniosa dos figurinos, assinados por Lola Tolentino. ‘‘Foi preciso acertar o tom exato, adequado não só à época mas ao estilo de cada personagem’’, explica Lola. ‘‘Por outro lado, há muito mais referências para se pesquisar antes da concepção’’.
No ano passado, o Grupo Tapa trouxe duas aplaudidas montagens: ‘‘Rasto Atrás’’ e ‘‘Morte e Vida Severina’’, ambas com o mesmo toque sensível da peça deste ano. Não com clichês óbvios ou sentimentalismo barato, mas com a sutileza das forças que movem as engrenagens domésticas, aquelas que avisam em letras garrafais para a vizinhança que ‘‘esta é uma família perfeita’’ mas que, no fundo, podem estar corroídas pelo tédio do dia-a-dia.
q Do Fundo do Lago Escuro - de Domingos de Oliveira, com o Grupo Tapa, de São Paulo. Direção de Eduardo Tolentino de Araújo. Com Beatriz Segall e elenco. Teatro Fernanda Montenegro, hoje, às 17h e 20h.

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