São Paulo, 30 (AE) - Antes de ser diretora (estreou com "O Filho Preferido, de 1995), Nicole Garcia foi atriz. O título nobre de sua carreira diante das câmeras é O Tio da América, que Alain Resnais realizou com base nas pesquisas do biólogo Henri Laborit. Mas Nicole também participou de filmes como Sempre aos Domingos, de Serge Bourguignon, que ganhou o Oscar, e "Um Homem, Uma Mulher - 20 Anos Depois", de Claude Lelouch. Nicole assina agora "Place Vendôme, que estréia amanhã (31). O filme deixa um tanto a desejar, mas apresenta um marcante trabalho de direção das atrizes.
Nicole conseguiu o que Roman Polanski não logrou - uma boa interpretação da mulher do diretor, Emmanuelle Seigner. Também não representa pouca coisa o fato de ela humanizar uma estrela como Catherine Deneuve, que chegou a ganhar o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza de 1998. Catherine é ótima como Marianne, casada com um joalheiro. O começo do filme deixa claro que se trata de uma relação vazia, de aparência. Ela bebe às escondidas, sai de uma clínica para outra. O marido mete-se em falcatruas na profissão. Suicida-se decorridos uns 15 minutos de projeção. A partir daí, Nicole revela quais são suas intenções.
Marianne retoma o fio da própria vida. Tenta voltar ao negócio das jóias, vendendo pedras preciosas que o marido conseguiu numa operação ilegal, driblando criminosos. Nesse processo, em que ela pode tanto se destruir como renascer, como nova mulher, envolve-se com a personagem de Emmanuelle e com um antigo amante, responsável por ela quase ter sido presa no passado. Ele é interpretado por Jacques Dutronc, o Van Gogh de Maurice Pialat.
As primeiras imagens são tomadas da Place Vendôme, um dos cartões-postais de Paris. Nela se localizam as grandes joalherias da cidade. Nicole começa descortinando o espaço. Mas ela quer mostrar o reverso da Paris glamourosa dos turistas. A Place Vendôme é só fachada de uma realidade que se revela desglamourizada. Miséria humana, pessoas que manipulam umas às outras, conflitos subterrâneos. É esse o mundo de "Place Vendôme". Nicole gosta de falar de relações. Já era assim em O Filho Preferido", com aqueles conflitos familiares rondando o mundo do boxe (vagamente inspirados em "Rocco e Seus Irmãos", a obra-prima de Luchino Visconti, que a diretora adora).
Frieza - Seria injusto definir "Place Vendôme" como um mau filme, pois ele não é. O trabalho de atores é realmente primoroso. Talvez por ser, ou ter sido, ela própria, atriz, Nicole dedica atenção especial aos rostos, aos gestos, aos movimentos do seu elenco em cena. Mas o filme não provoca empatia. É frio. A parte policial da história, a disputa pelas pedras, os jogos armados por Battistelli (Dutronc), o cerco da polícia e dos gângsteres, nada disso consegue ser muito interessante.
O espectador apenas olha, sem se entusiasmar. Mas Emmanuelle Seigner, por uma vez na vida, é mais do que a mulher exuberantemente carnal (e vulgar) que Polanski tem um prazer perverso em filmar e Catherine Deneuve retoma aquele temperamento dramático que, com frequência, tem sido ofuscado pelo seu mito.
Catherine surgiu meio Barbie no filme todo cantado de Jacques Demy, Os Guarda-Chuvas do Amor. Polanski, em Repulsa ao Sexo, e especialmente Luis Buñuel, em A Bela da Tarde", esculpiram na aparência um tanto frígida da mulher e da atriz um dos mitos mais impressionantes do cinema francês depois da nouvelle vague. Ela nunca é menos do que exata em "Place Vendôme". Tem momentos que ajudam a lembrar que as deusas da tela, na verdade, não perderam sua substância humana. Serviço - Place Vendôme. Drama. Direção de Nicole Garcia. Com Catherine Deneuve, Jacques Dutronc, Emmanuelle Seigner. Duração: 117 minutos. 14 anos. Distribuição: Pandora Filmes

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