PJ Harvey retorna cerebral
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Thales de Menezes 
São Paulo - Polly Jean Harvey gosta de mudar. Troca de estilos musicais, de guarda-roupa e de corte de cabelo a cada álbum. Até o nome já trocou, antes era P.J. Harvey, agora pede que escrevam PJ Harvey.
Por isso, o fato de seu oitavo álbum solo soar diferente de tudo que ela lançou antes não surpreende. Mas ''Let England Shake'', que chegou às lojas do planeta na última segunda-feira (14), deixa de lado o inegável poder de atração sexual da cantora.
As músicas são ótimas, quase todas poderiam ser lançadas como um novo single e os fãs de PJ iriam adorar. O que causa estranheza é olhar o conjunto da obra.
A cantora adota pela primeira vez o formato do ''álbum conceitual''. O tema é a Inglaterra e sua história de combates militares. Nas letras, o tom vai de simpática nostalgia de um país que já foi muito poderoso ao deboche inclemente dirigido aos donos do poder.
Assim, as letras alternam hinos e lamentos. Numa audição apressada, alguém poderia fazer comparações com ''The Final Cut'' (1983), o disco conceitual do Pink Floyd em que Roger Waters exorcizou fantasmas de guerra, mas ali são letras narrativas.
PJ, por sua vez, escreve intrincados poemas nos quais as imagens, a princípio desconexas, vão formando painéis sobre glória e morte no campo de batalha.
Musicalmente, a ruptura com as baladas ao piano de ''White Chalk'' (2007), seu álbum anterior, é brutal.
Entre variações de peso, as canções de ''Let England Shake'' soam às vezes quase hipnóticas, efeito causado por acordes repetitivos que PJ toca em sua autoharp.
Apesar do nome remeter à harpa, esse instrumento criado em 1926 é na verdade uma cítara, com as cordas presas por amortecedores reguláveis a uma placa. Atual brinquedinho favorito da cantora, imprime uma aura marcial às músicas.
Guitarras e bateria entram em batidas curtas, querendo representar tiros e explosões.
Em ''The Glorious Land'', faixa em que PJ começa a cantar suave e, aos poucos, solta o vozeirão furioso, não falta uma cornetinha de cavalaria de filmes de caubói.
Mesmo em uma carreira com muitas caras diferentes, desde a espetacular estreia em ''Dry'' (1992) um elemento foi constante no trabalho da cantora britânica: uma carga sensual arrebatadora.
Clipes e, principalmente, shows de PJ sempre seduziram fãs. Mas os vídeos do novo disco, ''The Words that Market Murder'' e ''The Last Living Rose'', trazem a musa bem comportada.
Nenhuma faixa do álbum apresenta o registro mais grave e sensual da voz dela, antes uma marca registrada.
Resta saber agora se todos vão aprovar essa PJ Harvey mais cerebral e assexuada.


