Pixote da Colômbia decepciona
PIXOTE DA COLÔMBIA DECEPCIONA
Filme se perde entre a poesia e a intervenção na busca de propostas para o problema do menor infrator
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Pascal Guyot/France Presse
Os atores Geovanni Queiroz e Leidy Tavares, com o diretor colombiano Victor GaviriaEnviado Especial a Cannes
Há oito anos, o jovem diretor Victor Gaviria deixaria marcas no Festival de Cannes, por duas razões. A primeira, histórica, porque o cineasta foi o primeiro (e até aqui o único) colombiano selecionado para a mostra competitiva, trazendo o filme Rodrigo D. no Futuro, drama trágico, noir, mergulho sombrio na vida violenta de pequenos mafiosos em Medellin, quartel-general do cartel. E a segunda, é que a maioria de seus atores não-profissionais foi assassinada algum tempo depois das filmagens. Este ano Gaviria está de novo na seleção oficial, com La Vendedora de Rosas, e uma vez mais recorrendo ao tema que parece entranhado em sua militância como jornalista, poeta e homem de cinema.
Pode-se considerar este meu segundo longa-metragem como o prolongamento de Rodrigo D. no Futuro, no qual já me interessava pela sorte dos garotos delinquentes de rua, verdadeiros bandidos precoces, justificou-se Gaviria na desanimada coletiva de imprensa no Palais de Festivals. Segundo ele, entre 1985 e 1990, a mortalidade de jovens colombianos alcançou cifra aterradora: 50 mil mortos, somente na periferia de Medellin. Na época de Rodrigo fui duramente criticado, em meu país e no exterior, porque o filme fazia a apologia do banditismo, porque eu não condenava os atos criminosos de meus personagens. Agora, diante deste La Vendedora de Rosas, nota-se que as restrições ao filme de estréia eram em boa parte procedentes.
Desta vez, Gaviria coloca em cena a existência - melhor, a sobrevivência - das meninas de rua na mesma Medellin, sintetizada na figura franzina da adolescente Mônica, que vende flores, pratica pequenos furtos, cheira cola e se refugia em fantasias agradáveis que a memória entorpecida lhe proporciona. Aqui ele utilizou o mesmo gênero de narrativa do filme precedente, desta vez temperada por uma tendência poetizante. Enfoque perigoso, porque as meninas que roubam e se prostituem para se drogar e se alienar de uma realidade social sórdida são vistas de um ângulo apenas contemplativo. Pergunto a ele se viu Pixote, já que seus dois filmes se parecem muito com a obra-prima obra de Babenco, que já vai se tornando seminal. E cito outro filme latino, o venezuelano Sicário, que trilhou o mesmo caminho há cerca de cinco anos. Gaviria responde afirmativamente, com respeito e admiração pelo filme brasileiro. E questiono ainda se um cineasta latino-americano não poderia ir mais longe na denúncia, ser mais provocativo, mais instigante e crítico e participante no momento de propor alternativas, já que ficção e documento se misturam sem precisão de limites. Sua resposta, mais de poeta do que de alguém a todo custo disposto a intervir de alguma forma naquele cotidiano infernal, não convence: Esta autodestruição pela droga é uma realidade. Foi isto que constatei ao longo de minhas investigações. Quis mostrar sua alegria de viver, apesar da pouca duração de suas vidas. Minha inspiração vem de minhas pesquisas.
Apesar de transmitir esta sensação de impotência consciente e de certas figuras poéticas primitivas - as meninas vistas simbolicamente como botões de rosas que jamais chegarão a desabrochar, vida cruel-espinhos, etc - o filme chega a impressionar pela cenografia naturalista-documental que extrai com rigor o pior das favelas de Medellin e pelo elenco de pequenos desvalidos, que pode, provavelmente, não estar vivo ano que vem. Ou, para ser mais urgente, nas próximas horas. O que se espera é que Gaviria faça menos poesia e seja mais participante na busca das difíceis soluções. Pode assim, quem sabe, arrancar os aplausos que foram negados a seu filme aqui em Cannes. E estar ainda poupando a vida de todo o elenco de seu próximo filme.





