Pixinguinha, um artista de muitos talentos
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quarta-feira, 08 de outubro de 2008
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
O que é bom não envelhece, vira clássico. O som agudo da flauta em Lamentos, a primeira música do CD Pixinguinha e Seu Tempo, lançamento da Biscoito Fino, transporta a gente para o passado. A gravação, da década de 20, tem o chiado característico dos bolachões antigos, que a gente não ouve mais. Era um tempo em que talento tinha que incluir também muita técnica: ninguém gravava com metrônomo, não tinha edição, nem mesa com 24 canais e muito menos softwares que pasteurizam tudo no mesmo padrão. À medida que a flauta de Pixinguinha se anima, no chorinho Carinhoso ou na valsa Rosa, às vezes ela corre e deixa o violão para trás; é a vez das cordas cobrarem impulso e se alinharem com o sopro do mestre.
O CD tem 14 gravações do compositor, que também era instrumentista (tocava saxofone, além da flauta), arranjador, cantor e regente. As três últimas músicas, Mexe com Tudo, Urubatan e Sururu, gravadas pela Orquestra Victor Brasileira, mostram o lado arranjador de Pixinguinha. A primeira é um frevo, de 1940. As outras são chorinhos, parcerias com Benedito Lacerda e Zequinha de Abreu. Pixinguinha foi um dos primeiros a valorizar a percussão nas orquestras e criou introduções que se adequavam perfeitamente às músicas e acabaram incorporadas a muitas delas. Outra assinatura dele foi o contraponto do choro para seus arranjos.
Uma das faixas, Mi Dêxa Serpentina, de 1923, é da época em que ele fazia parte do conjunto Os Oito Batutas. A estréia do grupo, logo após o Carnaval de 1919, foi um sucesso estrondoso. Naquela época, era novidade colocar músicos negros em um lugar chique como o Cinema Palais, no Rio de Janeiro. Muita gente torceu o nariz mas o repertório popular do grupo caiu no gosto de gente importante do meio artístico, como Rui Barbosa e Ernesto Nazareth.
Alfredo da Rocha Viana Filho, Pixinguinha, tinha acordes que agradavam tanto a elite como o povão. O que ele tocava virava sucesso, apesar das críticas. Carinhoso e Lamento, por exemplo, seus dois choros mais famosos, foram acusados de trazer uma inaceitável influência de jazz; hoje em dia, as duas composições são consideradas avançadas demais para a época. De um jeito ou de outro, ganharam ouvidos e corações e gravaram o nome do autor na história. Não é a toa que no dia 23 de abril aniversário de Pixinguinha se comemora o Dia Nacional do Choro.


