'PITI' NO PALCO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de maio de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Será mesmo que chilique é coisa de mulher? E homem, nunca tem um piti? Das duas, uma: quem nunca teve um ataquezinho histérico ou é herói ou neurótico. Baseado em uma pesquisa feita nas ruas do Rio de Janeiro, em busca de um senso comum sobre a expressão piti, a Companhia Teatral Dani Lima montou um espetáculo de dança que trata das situações extremas que o ser humano vive em seu dia-a-dia.
A temática, tratada no palco de forma tragicômica, será levada ao público do Festival Internacional de Londrina hoje e amanhã, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde. Mas não se deve esperar uma montagem pesada, baixo-astral. No que depender do trabalho da companhia, o assunto será abordado com irreverência, numa linguagem de humor patético. Não é humor rasgado, comenta Dani Lima.
O trabalho de criação desse espetáculo partiu da pesquisa sobre os motivos, os sentimentos e as várias formas pelas quais um piti é caracterizado. As opiniões do público foram as mais variadas, como conta Dani Lima: só dá em mulher!, homem não tem isso aí, é coisa de bicha, típico de pessoas emotivas, etc... Opinião cada um tem a sua, mas o público poderá tirar suas próprias conclusões após assistir ao Piti da companhia carioca. Só por curiosidade, a coreógrafa acrescenta um dado: a palavra histeria vem de histerus que, em grego, significa útero.
A concepção de Piti carrega traços da dança contemporânea e de técnicas aéreas circenses, herdadas pela coreógrafa de experiências anteriores. Dani Lima passou pelo balé clássico, teatro, circo até chegar à dança contemporânea. Jornalista diplomada pela PUC/RJ, Dani Lima optou por trilhar sua carreira nos palcos. Formada pela Escola Nacional de Circo, ela foi uma das fundadoras da Intrépida Trupe. Na dança, trabalhou como assistente da coreógrafa Débora Colker e com Nienke Reerhorst ex-bailarina da companhia de Win Vandekeybus, da Bélgica.
O espetáculo Piti, na opinião de Dani Lima, é um pouco da história dos próprios artistas de sua companhia que se especializou em técnicas aéreas e as transferiu para o trabalho, com um aprofundamento em dança. Além dessas técnicas, os bailarinos utilizam como recurso o que chamam de contato-improvisação. A partir do contato dos corpos surgem movimentos de improvisação. Descobre-se, pela livre percepção, o que o corpo é capaz de fazer, explica. Também é utilizada na sensibilização dos bailarinos uma técnica de dança chamada release, que propõe um trabalho a partir do centro do corpo, dando liberdade às articulações.
O espetáculo apresentado hoje à noite se desenvolve como uma grande e única coreografia. Os seis bailarinos estarão no palco acompanhados de seis músicos, componentes da banda Brasov responsável pela trilha sonora ao vivo. Já a operação do som mecânico é feita pelos próprios bailarinos.
O cenário e os figurinos da montagem também revelam as intimidades do cotidiano. Durante um piti, a pessoa se mostra muito intimamente. O cenário traz basicamente elementos íntimos do dia-a-dia de uma casa, assim como o figurino, que trabalha a transparência e mostra o interior do personagem, antecipa.
A temática proposta pela diretora serviu como base para que os bailarinos trabalhassem uma concepção calcada em experiências pessoais. André Masseno, por exemplo, conta que numa primeira fase procurou descondicionar as idéias pré-estabelecidas sobre o tema, para não cair na mesmice e num conceito generalizado. Parti para uma auto-avaliação, para saber em que momento a gente se coloca nesta situação ridícula e como seu corpo funciona na hora da histeria. O bailarino observa que, ao enxergar a real situação, a pessoa fica mais vulnerável. Chega o momento de descarregar e se expor, diz.
Piti, espetáculo com a Companhia Teatral Dani Lima, do Rio de Janeiro. Concepção, direção geral e direção coreográfica: Dani Lima. Figurinos: Valéria Martins. Cenário e direção de arte: Anna Vandenbergue/Davi Bartex. Iluminação: Paulo César Medeiros. Trilha sonora/direção musical: Felipe Rocha.


