São Paulo, 19 (AE) - A Pirelli levou a sério a palavra caritas, a mais amada do eremita Francisco de Paula, o padroeiro dos marinheiros. Vai doar, no dia 29, para o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) uma escultura de 94 centímetros de altura do santo calabrês, vestindo o hábito negro dos capuchinhos. Detalhe: a escultura é atribuída a Aleijadinho e, vale uma fortuna .
A doação faz parte das comemorações dos 70 anos da Pirelli no Brasil. A empresa, que começou sua parceria com o Masp editando calendários sobre artistas brasileiros e ajudou o museu a construir o maior acervo de fotografia do Brasil (Coleção Pirelli/Masp), agora coloca em suas salas a escultura de São Francisco de Paula, em madeira policromada. A obra, atribuída a Aleijadinho, foi incluída por Germain Bazin, curador-chefe do Museu do Louvre, em seu estudo sobre o escultor brasileiro, "O Aleijadinho e a Escultura Barroca no Brasil" (Editora Record). Segundo a avaliação de Bazin, "não se pode encontrar expressão mais típica dos corpos, própria dos personagens esculpidos pelo Aleijadinho".
Em outras palavras, Bazin quer dizer que o santo tem nariz fino, saliente, e narinas bem delineadas. Confere. Tem braços curtos e rígidos. Confere. Tem a boca entreaberta e lábios carnudos. Confere. Tem bigodes que nascem das narinas, longe dos lábios. Confere. Tem olhos amendoados e rasgados. Confere. E tem também uma expressão bem diferente daquela retratada por Tiepolo na possível data de nascimento de Aleijadinho em Minas, 1730. Enquanto o escultor nascia, Tiepolo retratava o santo apoiado numa nuvem ao lado de um anjinho. Na ponta do cajado brilhava a palavra Caritas. Dez anos depois, Tiepolo fez o santo descer à terra e apoiar seu cajado numa pedra.
Santo na Terra - Se o segundo retrato do santo por Tiepolo contempla o homem de igual para igual, o São Francisco de Aleijadinho vê a humanidade de cima. Não olha para os céus como outra imagem do santo na igreja lisboeta que leva seu nome. O Francisco português está em êxtase e longe do mundo secular. Já o santo de Aleijadinho tem o olhar compassivo. É terno como o da imagem de São Francisco de Paula do Museu do Aleijadinho, em Ouro Preto, embora pareça mais jovem e com duas rugas a menos na longa testa. Por certo Aleijadinho retratava o santo quando Francisco já havia recebido os sacramentos e fundado os Mínimos no século 15, mas isso é difícil de saber.
Em todo o caso, como quase todas as esculturas de Aleijadinho, seu São Francisco de Paula sofre na madeira o mesmo mal que acometeu seu autor. O indicador da mão direita perdeu as duas primeiras seções e o dedão do pé direito desapareceu. O hábito também sofreu a ação do tempo, mas, em se tratando de um franciscano, alguém que está entre os últimos servos da Casa do Senhor, o manto não quer dizer nada. Em maio do ano passado, dois meses depois de desenterrada a ossada de Aleijadinho da Igreja Nossa Senhora da Conceição, uma escultura sua foi vendida num leilão organizado pela Christies de Nova York por US$ 420 mil para um colecionador brasileiro.
O presidente da Pirelli, Giorgio della Seta, que é um homem educado, não revela o valor da escultura doada ao Masp. Diz apenas que essa é uma demonstração de como uma empresa moderna se relaciona com a comunidade. "A começar pela escolha da obra, a intenção da Pirelli é dar a este momento uma conotação histórica, às vésperas de o Brasil completar 500 anos", justifica. Della Seta diz que sua longa amizade com o presidente do Masp, Júlio Neves, também interferiu no momento da decisão.
"Nós temos um acervo moderno, integrado principalmente por artistas italianos que se estabeleceram no Brasil", disse Della Seta por telefone, da Itália. Não garantiu se parte dessa coleção - que tem Volpi e outros mestres - vai parar no Masp como a escultura de Aleijadinho, mas diz que a parceria com o museu tem garantido o sucesso de todas as iniciativas culturais da empresa. "Nossa coleção de fotografia já viajou por vários países da América do Sul e estamos estudando a possibilidade de uma exposição nos Estados Unidos."
Na Itália, a Pirelli patrocina o Teatro Alla Scala de Milão. No Brasil, a empresa contemplou as artes visuais e o Masp
por seu rico acervo, foi escolhido como parceiro. "A importância do museu no cenário internacional é reconhecida por todos e eu, particularmente, fico impressionado com as mostras educativas organizadas pelo Masp", elogia. Della Seta espera que a doação da escultura de Aleijadinho incentive outras empresas a enriquecer o acervo do museu, que não tem recebido muita atenção dos ricos representantes da comunidade, como na época de Assis Chateaubriand.
Último expressionista - A última grande doação do Masp foi feita em junho de 1993 pelo presidente honorário do Banco Alemão, Hermann J. Abs, que chegou ao Brasil em 1968 e permaneceu como conselheiro da Mercedes-Benz até abril do ano da doação. A obra, "Veleiros na Tempestade", um pequeno óleo de Max Pechstein (1881-1955), inaugurou a coleção dos expressionistas alemães do museu.
O acervo do Masp tem mais de 3 mil obras. O museu parou de comprar nos anos 50. Na época, adquiriu um valioso lote com bailarinas em bronze de Degas. Hoje, o museu amarga uma reforma interminável, mas ainda tem como trunfo o inestimável acervo com telas dos impressionistas e grandes mestres do passado (Rembrandt, Rafael, Ticiano).
Na época da doação de Pechstein, a ex-ministra da Educação e Cultura do governo Figueiredo, Esther de Figueiredo Ferraz, então presidente do Conselho do Masp, ficou surpresa com o gesto incomum de Abs. O Brasil, como sempre, estava em crise. Os empresários, dizia a ex-ministra, não pensavam em cultura como prioridade. O então presidente do museu, Edmundo Monteiro, jurava que o Masp não tinha verbas para adquirir novas obras, dependendo, como nos velhos tempos, da bondade alheia. Hoje, o presidente Júlio Neves classifica a doação da Pirelli de "ato de civismo", esperando que o gesto de seu presidente possa inspirar iniciativas semelhantes.
Generosidade - O mercado de arte não parece sensível à idéia de doações, mas alguns museus ainda recebem obras de particulares. Uma senhora entrou há alguns meses na sala do diretor da Pinacoteca do Estado, Emanoel Araújo, com um pacote simples que, aberto, revelou belas telas de Pancetti, um dos mais valorizados pintores modernos brasileiros. Trata-se, porém, de um gesto isolado, embora a Pinacoteca não possa reclamar dos empresários (o Banco Safra doou valiosas esculturas e patrocina mostras do museu).
O ministro da Cultura, Francisco Weffort, identifica no gesto da Pirelli "uma maneira de expressar gratidão ao país que tão bem acolheu seu trabalho e seu esforço de crescimento". O presidente da empresa, Della Seta, diz que conviveu com a obra de Aleijadinho durante 15 anos e sente que a transferência desse patrimônio vai motivar outras doações. A escultura pertencia a um antiquário paulistano, que a comprou de um colecionador particular do Rio de Janeiro e a vendeu à Pirelli nos anos 80, segundo Della Seta.

mockup