Pirata autêntico e dentro da lei
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sexta-feira, 23 de outubro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Verfremdungseffekt Blues. Entendeu? Esse é o nome do disco de Celso Piratta, compositor com 31 anos de vida artística que está lançando seu primeiro CD. Mas o que quer dizer o termo alemão? Uma espécie de efeito de distanciamento, recurso que era muito usado por Bertolt Brecht em suas peças. Quando a platéia estava envolvida com o espetáculo, como se aquilo fosse verdade, vinha a quebra - o ator deixava o personagem para mostrar que tudo não passava de um mero faz-de-conta.
O nome na capa do disco é mais que uma citação; o repertório é quase todo de músicas retiradas de trilhas sonoras. Uns 90%, calcula o autor. Verfremdungseffekt Blues, por exemplo, foi retirado de Chicago 1930, e, fazendo jus ao nome, é brechtiana. Na peça os atores-cantores quebravam o encanto dizendo que tudo aquilo era falso.
Das 24 músicas escolhidas por Piratta, uma não é sua. Mocinhas da Cidade, que marcou toda a carreira da dupla Belarmino e Gabriela, deixou os ares rurais para vestir-se de reggae, com a letra em inglês. A operação plástica deveu-se a dois motivos: homenagear Belarmino e Gabriela, ídolos de infância do compositor, e integrar uma trilha de teatro.
O repertório do disco seguiu uma única preocupação - serem originais e terem sido criados por mim, explica o autor. A maioria foi pinçada do musical Chicago 1930, que ele considera o trabalho mais completo que fiz para teatro, porque tinha uma variedade enorme de temas. Há um elemento em comum no trabalho: Coisa de timbre, de estilo. É o que procuro para mim mesmo, explica.
Neste disco você encontra esse timbre? Encontro. Tem o solo da guitarra e várias coisas que usei: computadores, samplers, a banda virtual interativa, responde. Para o compositor as máquinas associadas ao trabalho do homem, agilizam o processo de criação, especialmente quando vem o estalo. Do parto à mostra ao público, o tempo é bem menor. Essa é a única vantagem: Jamais o computador substituirá o homem, afirma.
Piratta tem 31 anos de carreira na música. Como compositor, 23 anos. No teatro ele está há menos tempo, mas o objetivo que o acompanha é claro - ter uma produção popular. As trilhas que dão clima aos espetáculos devem ser independentes o suficiente para não ficarem restritas às salas. Quero que a música seja ouvida fora dos teatros. A peça cumpriu seu tempo, virou arquivo, considera.
O compositor afirma estar vivendo uma ótima fase, apesar da competição que existe na área teatral. Ele reclama o abandono aos artistas da terra, evidenciado pelos cuidados que os poderes locais dão aos grupos que vêm de fora. Ainda assim o teatro sobrevive. Essa história de que santo de casa não faz milagre parece que encalacrou em Curitiba - se é que não foi inventada aqui, ironiza.
Durante alguns anos Piratta morou nos Estados Unidos, e aproveitou para aprender alguns segredos do som. Hoje tem um estúdio em casa, onde também faz peças para publicidade, sonoplastia e arranjos para outros músicos. Longe vão os dias da Jovem Guarda, quando tocava nos conjuntos Carcarás, Aquarius Band, Metralhas. Fase de muitos bailes e shows; não saía das estradas.
Cansou-se e começou a compor, até ser fisgado pelo teatro. Mas é desses tempos de bandas que ele, cabeludo, foi ligado à figura de pirata. A brincadeira marcou-o como tatuagem. Celso Loch trocou o sobrenome pelo apelido, tendo antes o cuidado de acrescentar mais um t.
Como tudo acontece dentro dos domínios caseiros, Celso Piratta parou de tocar na noite. Não aguento mais fumaça de cigarro. Estou pensando em voltar porque recebi convite para tocar jazz, e aí a coisa assume outra dimensão, diz.
Verfremdungseffekt Blues - CD de Celso Piratta. Das 24 faixas, a maioria traz canções extraídas de trilhas sonoras feitas para teatro. À venda no Teatro Lala Schneider, telefone (041) 225-2454; bar Café do Teatro, na Rua Amintas de Barros, ao lado do Teatro Guaíra; na Temptation Discos, telefone (041) 224-0402, ou diretamente com o compositor, pelo telefone (041) 354-3482.


