Pioneirismo sertanejo
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
As fãs se multiplicavam com a correspondência. O cotidiano dos cantores de rádio na década de 40 já anunciava a badalação que ganharia volume com o surgimento da TV. Entre as cartas do dia, Salviano França que cantava na Rádio Londrina com o irmão Sebastião França encontrou uma especial, com um pedido de música. No dia seguinte, no auditório da rádio, Salviano conheceu a remetente, Laíde Castro. Ambos conversaram, ele a acompanhou até sua casa e o romance resultou em casamento, que dura ainda hoje.
Quando Salviano foi convidado por Sebastião para formar uma dupla, a pioneira de Londrina, não sabia que ficaria conhecido, e muito menos que acabaria no altar. Ambos começaram em 1946, chegaram à rádio Londrina no ano seguinte e desenvolveram uma longa carreira como os Irmãos França, grupo voltado para a música caipira que encerrou, oficialmente, as atividades em 1972.
A coisa começou nos dias árduos do serviço militar obrigatório, por volta de 1945, quando Sebastião Teixeira França fez uma letra: Meus 21 Anos idade em que os homens atendiam à convocação. O texto virou música, cantada entre os companheiros de Exército.
Quando saiu da rotina militar, Sebastião chamou Salviano para cantarem em dupla, aos moldes de Tonico e Tinoco, Raul Torres e Florêncio, Serrinha e Caboclinho. Salviano fazia a primeira voz e Sebastião a segunda. Ambos ponteavam o violão como viola.
Em quase 30 anos de carreira, os Irmãos França tocaram por todo o Norte do Paraná, interior de São Paulo e Santa Catarina às vezes como dupla, outras como trio, incorporando o acordeom. Uma trajetória recheada de fãs e cartas, mas que não resultou em disco. Para eles, a música nunca foi trabalho, mas hobby. O dinheiro não dava para o sustento. Profissão mesmo era a de relojoeiro, desempenhada na Relojoaria França, localizada na Avenida Paraná.
Depois de compor sua primeira música no quartel, Sebastião ficou decidido a cantar no rádio. Como o irmão já havia topado, o jeito era ensaiar. Em 1947, Sebastião foi falar com Aymoré Kley, apresentador na Rádio Londrina.
O Aymoré nos falou assim: Eu preciso ouvir vocês cantando, vocês têm que fazer um teste. Aí nos mandou para um cômodo separado, ouviu e gostou. Foi então que começamos no rádio, recorda Sebastião, ao lado de Salviano. Hoje os dois só tocam eventualmente. Salviano teve um problema de saúde que atrapalhou seu desempenho vocal.
O bate-papo segue animado, respaldado por Gercino Pandolfi, o principal sanfoneiro do grupo. Em meio ao bom-humor, o assunto passa por duplas antigas, viagens e aventuras de um tempo em que as estradas eram lamaçais onde os automóveis viviam atolados.
Os Irmãos França se estabilizaram por cerca de 12 anos na Rádio Londrina com um programa diário, patrocinado, com cerca de 15 minutos de duração. Tempo suficiente para apresentar duas músicas, ler cartas recebiam cerca de 200 por mês e fazer brincadeiras.
Nós cantamos em rádio, em circo e em fazendas, ressalta Sebastião. A dupla era solicitada. Certa vez, lembra Salviano, um fazendeiro os levou para cantar em Paraíso do Norte (33 quilômetros ao sul de Paranavaí). O avião era tão pequeno que não transmitia segurança: Eu olhava de um lado, e via aquela altura. Olhava do outro, também. Aí começou a chover. Como aquilo balançava!.
Cantar em circo era complicado. Geralmente, a aparelhagem, quando tinha, se resumia a um microfone. Teve um show em que o rapaz do circo ficava passando o microfone da minha boca para a dele, aí eu pensei: Isto não está certo. E não cantamos mais em circo, lembra Salviano. Quando o circo não tinha aparelhagem, o jeito era apelar para o gogó. Só quem estava nas primeiras fileiras escutava.
Certa vez o show foi marcado em um circo de Bela Vista do Paraíso. Mas choveu tanto, que não teve espetáculo à noite. Só na matinê do dia seguinte. Na volta, o carro atolou no meio do caminho. Era um barro só, diverte-se Sebastião.
O repertório era composto basicamente por músicas de Sebastião, além de uma ou outra de Tonico e Tinoco e Raul Torres. O sucesso do grupo foi confirmado em 1956, quando os Irmãos França foram eleitos a melhor dupla do rádio londrinense em concurso realizado pela Folha de Londrina.
Além da Rádio Londrina, as apresentações se alternavam entre a Rádio Clube de Marília, Difusora de Penápolis, Cultura de Araçatuba, Clube de Bauru, Clube de Rolândia e Difusora de Maringá. Mesmo assim, não surgiu uma oportunidade para gravar: Era muito difícil, tinha que ir para São Paulo, acrescenta Sebastião.
Gercino Pandolfi, sanfoneiro que tocava em bailes, foi convidado por volta de 1955 a fazer parte do grupo, com quem trabalhou até o encerramento das atividades. Os Irmãos França influenciaram outros cantores, começou até a ter disputa entre as duplas. Eu tinha 19 anos quando comecei a tocar com eles, recorda.
Hoje o trio se reúne eventualmente, quando os irmãos voltam a dedilhar os violões comprados em 1954 e que ainda hoje obedecem aos ponteios. Estamos meio fora de forma, acentuam.
Os rumos que a música caipira tomou com o passar das décadas não foram seguidos pelo conjunto. O sertanejo moderno, por exemplo, não provoca entusiasmo. A gente só tocava coisa de raiz, hoje a gente escuta a música sertaneja, mas ela não empolga, comenta Salviano. É que os Irmãos França perteceram a uma época em que a música sertaneja era mais rural que urbana, entoada por prazer. Era um gênero que estava longe de ser uma indústria e movimentar fortunas. O reconhecimento compensava o trabalho.Os Irmãos França formaram uma das primeiras duplas caipiras de Londrina e soltaram a voz em várias rádios entre 1947 e 1972
ReproduçãoAinda como dupla, em 1947: início de carreiraReproduçãoEm 1948 os Irmãos França aparecem com o sanfoneiro Alberto VincentimReproduçãoJuliano é o sanfoneiro entre a dupla, em 1950ReproduçãoA formação mais duradoura, em foto de 1956, com GercinoCésar AugustoO conjunto ainda se encontra eventualmente, mas as apresentações foram encerradas em 1972





