Pinga-Fogo acende a polêmica no rádio
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quinta-feira, 19 de junho de 1997
Celina Alonso Az Maringá 
Marcos NegriniPinga-Fogo e os cobertores para os carentes: doação chega a mil a cada 15 diasQuem entrar no estúdio da Rádio Nova Ingá AM, de Maringá , entre 7h30 e 11 horas, certamente vai compreender por que o ex-deputado federal Benedito Claudio Pinga-Fogo de Oliveira renunciou ao cargo político para sempre e hoje vive de fazer rádio. Em menos de oito meses seu programa é líder de audiência e os anunciantes disputam um espaço publicitário. Seu novo programa na TV Bandeirantes está indo pelo mesmo caminho. Por que um humilde ex-guarda noturno que só estudou até a sétima série recebe 150 cartas por dia e é ouvido por milhares de pessoas na região norte e noroeste do Estado?
Uma hora no estúdio é suficiente para entender melhor o Pinga-Fogo. Hoje, ele completa 46 anos de idade e, como de costume, vai viajar só para não dar trabalho aos amigos e conhecidos que pretendem cumprimentá-lo e dar presentes.
Ele faz questão de dizer através de um cartaz colado no seu escritório Não sou candidato a nenhum cargo. Desiludido da política, crítico, mas bem-humorado, ele confirma sua vocação de radialista. Usa o veículo como um assistente social para promover a dignidade humana, além de informar e divertir o povão com músicas e piadinhas.
No escritório da Rádio Nova Ingá, onde ele é um dos donos, além da imagem de Nossa Senhora Aparecida e de Cristo crucificado, Pinga-Fogo tem um computador e um frigobar cheio de frutas que complementam seu almoço. Ele chega na rádio às seis e meia, lê todos os jornais da região, faz o programa, depois, uma pausa de meia-hora para comer numa marmitex e só sai de lá às 20 horas.
Na mesma sala ficam centenas de cobertores, enxovais de nenê, cadeiras-de roda, banheirinhas de plástico que Pinga-Fogo diz comprar com seus próprios recursos. Esse material ele doa aos carentes de quem recebe cerca de 150 cartas por dia, nas três rádios. No Natal compra 50 mil presentes e distribui para crianças carentes.
O programa Pinga-Fogo, quase todo ao vivo, entra no ar numa coligação das rádios Nova Era de Borrazópolis, Nova AM de Apucarana onde é líder absoluto de audiência, e Nova Ingá que ele arrendou do deputado Ricardo Barros.
Benedito Claudio Pinga-Fogo nasceu em Jandaia do Sul, onde trabalhava como guarda-noturno na empresa de um cunhado. Num dia de 1978 viu um anúncio pedindo um locutor para a rádio Guairacá de Mandaguari. Sarristas, os caras da rádio deixaram eu fazer o teste só de gozação, mas fiz tudo direitinho e eles tiveram de me dar o emprego, conta. Continou trabalhando como guarda à noite e como locutor de dia.
Assistencialismo O programa começa com mensagem musical. Carmen Silva canta Segura nas Mãos de Deus, depois da hora certa, as principais notícias trazidas por oito repórteres e quatro noticiaristas. Eles fazem escuta das rádios de Curitiba e São Paulo, e o resumo dos jornais paranaenses.
Ele mesmo faz um comercial de supermercado conclamando as donas de casa - que com os motoristas de táxi seus maiores ouvintes - a comprarem barato e sem juros. Chama o repórter policial da emissora coligada que conta o crime do dia. Pinga-Fogo comenta a barbaridade, com os olhos no cronômetro, uma mão sobre a orelha direita e a outra segurando o texto do próximo comercial. Diz a hora certa. Antes ele pede a um ouvinte que mandou carta para ir retirar sua cadeirinha para por na bicicleta. Agora o senhor já poderá levar seu filho para a creche na cadeirinha segura e confortável que eu comprei para você.
Em seguida faz uma pidadinha sobre um compadre, João Gaiteiro, de Apucarana, conta um causo e faz troça. Lê mais um trecho de carta de ouvinte, distribui outro enxoval para gestante e chama outro repórter. Assalto a carrinho de cachorro-quente no centro de Maringá. Pinga-Fogo comenta indignado, e põe para tocar Leandro e Leonardo.
De Apucarana, um outro repórter, com uma nota política. Pinga-Fogo rebate de Maringá. Pinga-Fogo continua chamando os ouvintes que ele selecionou, através das cartas, para irem retirar seu cobertor de presente. Ele doou mil deles em 15 dias. Garante que paga a passagem dos que vierem de longe. Não me xinga se você não ganhar por que eu não tenho culpa, tá?, pede o radialista ao ouvinte que não ganhou cobertor.
Para divertir seu público ele solta vinhetas, gravações humorísticas, imitações com vozes de velhos, crianças e conversa com todas elas. Como se o programa fosse ao vivo, direto de um grande auditório. Em seguida, ele critica o corporativismo de algumas classes, depois de ler uma notícia que saiu no jornal. Recebe a ligação de uma candidata a doméstica e já bota logo no ar, fazendo propaganda da moça para os ouvintes. Arranjo muitos empregos e nunca reclamaram dos candidatos que ofereço no ar, comenta, e já toca mais música. Para não cansar muito a voz, o radialista grava durante a semana, alguns trechos comerciais que vai colocando no ar enquanto se organiza no estúdio durante o programa.


