Pinceladas de loucura e genialidade
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quarta-feira, 11 de setembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), um fracasso em vida, só foi reconhecido pela posteridade. Até se matar com um tiro no peito, tinha vendido apenas um quadro, ainda assim a uma amiga. Quando muito, convencia o dono do botequim a aceitar uma tela para zerar a conta do absinto.
Deixou centenas de pinturas e dezenas de desenhos para o irmão Théo, que o sustentava. Hoje, qualquer rabisco com sua assinatura alcança cifras recordes nos leilões de Londres e Nova York. Sua trajetória, uma das mais fascinantes da história da arte, nunca deixou de despertar interesse.
No Brasil, a exibição de um documentário hoje pela TV Cultura e o lançamento da reedição ampliada do livro ''Cartas a Théo'' pela L&PM trazem seu nome outra vez à pauta. Na TV, Van Gogh é o destaque da vez da série ''Grandes Mestres da Pintura''.
O programa, que vai ao ar às 22h30, revive os dois últimos anos de sua vida recapitulando a época em que o pintor morou na cidade de Arles, depois no asilo de Sant-Paul-de-Mausole em Saint Rémy de Provence e posteriormente no vilarejo Auvers-sur-Oise todos no sul da França.
Foi na primeira parada, em 1888, que ele desenvolveu a conturbada amizade com o também pintor Paul Gauguin, ao qual atacou com uma navalha durante sua primeira grande crise mental. Foi também ali, após se irritar com o anúncio do casamento de seu irmão, que Van Gogh cortou a própria orelha passando depois a sofrer de insônia e alucinações.
Nesta fase, chegou a pintar à noite com uma coroa de velas acesas em volta da cabeça. Os moradores da cidade, amedrontados, assinaram uma petição exigindo seu internamento. A polícia foi buscá-lo em casa escoltando-o até o manicômio. Lá, não parou de produzir legando para a posteridade quadros célebres como ''O Café, à noite'' e ''A noite estrelada''.
Após ganhar alta, novas crises o obrigaram a internar-se voluntariamente no hospício de Saint Rémy. Ali, produziu freneticamente: um quadro a cada dois dias, mais de 200 desenhos e 40 telas, entre eles o famoso ''Íris'', que retrata as pequenas flores que cercavam o pintor nos jardins do asilo.
Em dezembro desse ano, Van Gogh tentou engolir tintas após mais uma crise de nervos, a essa altura cíclicas. Na temporada seguinte, o artista instalou-se em Auvers-sur-Oise. É dessa época o quadro ''Campo de Trigo com Corvos'', um dos mais dramáticos e violentos de sua vasta obra. Em julho de 1890, depois de ser visto circulando pelas ruas com uma pistola no bolso, decide pôr fim à vida disparando um tiro contra o próprio peito.
No hospital, a agonia acaba no dia 29. No documentário da Cultura, vida e obra são entrelaçadas mostrando que as tormentas interiores do artista refletem-se nos trabalhos do período, marcados por cores vibrantes e pinceladas fortes. O especial começa com Van Gogh ainda em Paris, deixando para trás um apartamento dividido com seu irmão Théo, quatro anos mais moço.
O pintor não conseguia comercializar seus quadros e, aos poucos, sua personalidade desgastante foi tornando a relação dos dois insuportável. Não conseguiam morar sob o mesmo teto, mas ambos se sentiam emocionalmente inseparáveis, como prova a intensa troca de cartas durante quase 20 anos.
Quando chegou em Arles, o artista retomou sua correspondência com Théo. Eles continuaram a se escrever até Van Gogh se suicidar. As cartas do pintor contêm um registro detalhado de sua vida diária, impressões do ambiente que o cercava, o temor à loucura e reflexões sobre sua arte. O livro com as missivas saiu pela primeira vez no Brasil em 1986.
Agora, a L&PM está lançando ''Cartas a Théo'' numa edição ampliada com mais de uma centena de epístolas adicionais. A antologia garimpa 200 entre as mais importantes, cobrindo de 1873 até a carta encontrada em seu quarto, escrita poucos dias antes de sua trágica morte. Procurou-se, segundo o texto de apresentação, manter intocado o clima de intensa e dramática comunicação entre os dois irmãos excluindo redundâncias, listas burocráticas de materiais de pintura e pedidos de roupas e equipamentos.
O conjunto revela o homem doente e o homem culto. Pela correspondência desfilam comentários sobre quase duzentos pintores, arquitetos, filósofos, escritores que foram importantes para a formação de Van Gogh. O livro inclui um perfil biográfico, cronologia, fac-símiles das cartas (em boa parte delas, o artista submete a Théo esboços e croquis dos quadros que pretende fazer), um amplo glossário dos nomes citados e o texto de Paul Gauguin descrevendo o célebre episódio em que o pintor corta a orelha.
Serviço:
- Documentário ''Van Gogh Grandes Mestres da Pintura''. Hoje na TV Cultura. Horário: 22h30.
- Livro ''Cartas a Théo''. L&PM editores. Telefone (51) 3225-5777.


