Curitiba Levar crianças ao museu pode até ser uma tarefa fácil, mas fazer os pequenos se interessarem pelas obras centenárias já são outros quinhentos. O criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa, decidiu tornar a tarefa menos árdua e transformou os personagens da animada turminha dos quadrinhos em modelos consagrados por pintores de todo o mundo. O resultado pode ser visto na exposição ''História em Quadrões'', que abre hoje em Curitiba.
São 47 pinturas que mostram a turminha em cenas bem conhecidas dos amantes das artes. A dentuça Mônica por exemplo, se transformou numa autêntica Monalisa, musa de Leonardo da Vinci. Já o espevitado Cebolinha ganhou ares de ''O Pensador'', de Auguste Rodin, e aparece na única escultura da mostra armando um de seus inúmeros planos infalíveis.
A comilona Magali, o Cascão, o cachorro Bidu, o esperto Franjinha e até o Louco também podem ser encontrados em cenas criadas originalmente por Monet, Botticelli, Van Gogh, Degas, Michelangelo, Toulouse-Lautrec, Renoir, Portinari, Almeida Júnior, Anita Malfatti, entre outros nomes consagrados da pintura.
Para escolher os artistas, Sousa conta que o critério foi um só: ''Busquei as obras mais conhecidas, já que o objetivo era provocar a ida das crianças ao museu e também despertar a curiosidade delas'', disse à Folha2, por telefone. A mostra já passou por três cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador) e reuniu cerca de 500 mil visitantes. Ganhou espaço em Curitiba no Museu Metropolitano de Arte, no Centro Cultural do Portão.
Antes das releituras que integram a exposição ficarem prontas, o desenhista da turminha mais famosa dos quadrinhos brasileiros passou quase uma década pesquisando os traços dos artistas. Dos inúmeros pintores visitados, não esconde sua predileção por Monet e Van Gogh. ''Acho que quando arriscar minhas próprias telas, vai sair uma mistura dos dois: a maluquice de Van Gogh e o etéreo de Monet'', adianta. É que entre os tantos projetos de Sousa está o de expôr os seus próprios quadros, desenvolvendo um estilo pessoal.
A meta só não foi cumprida ainda porque o desenhista anda afogado em propostas. Uma delas, em parceria com a Editora Nova Fronteira, é o ''Dicionário Aurélio da Turma da Mônica''. Ele explica que é um dicionário interativo, que vai poder ser utilizado tanto pelas crianças como pelos professores, que vão poder adotar a obra como material didático. A previsão de lançamento do dicionário é para abril do ano que vem, na Bienal do Livro, em São Paulo.
Na área dos quadrinhos, praia de Mauricio de Sousa, deve sair dos esboços ainda esse ano um projeto antigo do desenhista. O de dar independência à Tina, a personagem adolescente de cabelo escorrido que aparece eventualmente nas revistinhas da Mônica. O gibi exclusivo teve que ser engavetado antes de ser lançado, mas a personagem vai ganhar as tiras de jornais, com histórias semanais e atualizadas.
Mauricio de Sousa conta que o projeto original da revista própria foi abandonado, a princípio, por causa das rápidas mudanças de comportamento dos jovens. ''Uma revista demora em média nove meses para ficar pronta. Quando acabávamos o projeto, as histórias já estavam ultrapassadas, os jovens já estavam falando outra língua'', explica. E complementa que esse ''perigo'' passa longe das histórias da Turminha da Mônica.
A personagem-título, por exemplo, está comemorando 40 anos sem perder a vitalidade e conquistando cada vez mais a garotada. ''Para nos atualizarmos ficamos de olhos abertos, temos filhos, netos, enfim, estamos vivos'', ensina Sousa. Além disso, a cada cinco anos, os roteiristas precisam rever o direcionamento das histórias. ''Temos que nos adaptar'', diz.
Ele conta que só não comemora as quatro décadas da personagem por uma questão, digamos, familiar. ''Todo mundo sabe que a Mônica foi inspirada na minha filha quando ela tinha dois anos. E todas as vezes que a personagem dos quadrinhos faz aniversário, a Mônica de carne e osso se sente mais velha'', brinca. E como o pai Mauricio de Sousa não quer arriscar levar uma coelhada da Mônica de verdade, prefere não comemorar os aniversários com muita marcação. ''Além disso, todo dia é dia de festa'', ameniza.
Mas o desenhista não vê o tempo passar sem se atualizar. Ele prepara, por exemplo, vários curtas digitais do Horácio, único personagem que ele ainda desenha e cria as histórias, ao longo dos 38 anos de existência do dinossauro. Parte desse trabalho já pode ser visto em cenas digitais com duração de um minuto, que passam antes dos filmes em cartaz na rede Luiz Severiano Ribeiro.
Os desenhos do dinossauro verde e simpático que vive tentando encontrar a mãe devem se transformar em um longa. Reflexo da tecnologia incorporada pelo desenhista. ''Mas isso ainda leva dois anos''. Antes disso, porém, o Estúdio Mauricio de Sousa está empenhado em um trabalho que já está em fase de produção. O filme ''Romeu e Julieta e a Turma da Mônica'' está sendo produzido no Brasil, mas será finalizado no exterior. ''Ainda estamos escolhendo a cidade'', revela Sousa. Os desenhos estão sendo feitos em computação gráfica e o projeto deve consumir de R$ 6 a R$ 7 milhões.
Em meio a tantos projetos, o desenhista e empresário de 67 anos revela um segredo. Está preparando também uma exposição baseada em fotos que tirou nos últimos anos. ''A maioria são paisagens, mas mostram uma ruptura, um contraste com o que estamos acostumados a ver'', avisa. Enquanto todos os projetos estão em andamento e não podem ser apreciados pelos mais afoitos, o desenhista aconselha uma visita à mostra ''História em Quadrões'' que está percorrendo.
A exposição fica aberta até 10 de novembro e tem parceria com a Fundação Cultural de Curitiba (FCC). Marceneiros da fundação, monitorados pelo arquiteto Clécio Zeithamer construíram uma versão tridimensional do quarto de Van Gogh. A FCC também treinou estagiários para fazer as monitorias da mostra. Agora não faltam motivos para ir ao museu.
Serviço:
''História em Quadrões'', de hoje até 10 de novembro, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba - Centro Cultural do Portão (Av. República Argentina, 3430). Entrada franca.

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