Os homens possuem a capacidade de construir a realidade à sua imagem e semelhança. Erguem paredes, tijolo por tijolo, formando uma espécie de espelho que muitas vezes reflete imagens disformes. Em algumas situações, o desejo de controlar a realidade chega a provocar uma reviravolta meteórica, capaz de subverter o próprio destino.
A revolta do destino contra a construção da realidade é um tema recorrente na literatura contemporânea. Com todo frescor, tornou-se um trampolim para a investigação da anônima existência atual. Em seu novo romance, ‘‘Barco a Seco’’, o escritor carioca Rubens Figueiredo percorre esse assunto de maneira elegante. Deixa de lado os fatos que estruturam a realidade para se debruçar na reflexão de seu processo, seja ele construtivo ou destrutivo.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘Barco a Seco’’ é o intricado depoimento do narrador, um homem chamado Gaspar, frente às veias abertas do passado. Em seu relato, o presente seria uma glória conquistada palmo a palmo que, apesar de todo o esforço, pode desmoronar de uma hora para outra.
Gaspar é um órfão criado numa família pobre e desajustada. Tratado como intruso por todos os moradores da casa, precisa se contorcer para sobreviver nesse ambiente. Aos 16 anos de idade é expulso da família e obrigado a aprender a se virar vagando pelas ruas do Rio de Janeiro. Com muito esforço, dedicação, e acima de tudo, frieza, consegue continuar estudando. Entre estudo e trabalho, consegue cursar uma faculdade de artes e tornar-se um especialista num obscuro pintor, Emilio Vega.
Em sua batalha por uma vida melhor, calcula todos seus atos de maneira matemática. Mesmo não compreendendo o motivo que o impulsiona para frente, faz questão de apagar o próprio passado: ‘‘Ganhar a vida, dizemos, como que não quer nada. E deixarmos no ar a idéia de um prêmio, de uma recompensa merecida, quando na verdade se trata sempre de conquistar a vida à força – cada batida do coração que treme no peito, cada fatia de ar abocanhada e trazida para o fundo do pulmão. Conquistar, tomar posse. E na hora em que a vida nos infunde o seu tumulto e se alastra em nossas veias, é preciso parar um instante e conter-nos. É preciso até morder o lábio, para não deixar escapar em voz alta a pergunta absurda: afinal, por que este mundo me quer tão bem? Por que esta terra me ama tanto para me conservar ainda vivo, de pé e cheio de força, a despeito de tudo o que murcha e definha à minha volta?’’
Emilio Vega foi um imigrante espanhol que chegou ainda jovem no Brasil tornando-se um artista errante. Pintava em qualquer superfície que encontrava, em especial tampas de caixas de charuto que recolhia nas tabacarias do Rio de Janeiro. Sua arte era obsessiva, pintava apenas paisagens marítimas onde o elemento humano não era retratado. Sem residência fixa, trocava suas pinturas por comida e bebida. Levava uma vida tumultuada, encharcada de álcool e isolada do convívio social.
Após sua misteriosa morte nas águas do mar, seus quadros começaram a valorizar. Percebendo esse filão comercial, Gaspar começou a estudar a obra de Vega até tornar-se um especialista. Passa então a ganhar a vida analisando e autenticidade das pinturas atribuídas ao pintor. Nos leilões de arte suas telas alcançam altos valores e isso dá origem a uma série de falsificações.
As coisas mudam de figura quando surge um velho afirmando ter sido amigo de Vega. A vida de Gaspar e do velho vão se cruzar de maneira lenta e inusitada. Os dois personagens seguem caminhos opostos, mas representam os dois lados de uma mesma moeda. Um procura apagar o próprio passado em função do presente. O outro tenta apagar seu presente para resgatar o passado. Apesar das esperanças, nenhum dos dois consegue ter o controle total sobre os acontecimentos, sobre a realidade. A vida mais parece um jogo de possibilidade que foge a qualquer tipo de controle, mesmo quando matematicamente calculada.
A narrativa de ‘‘Barco a Seco’’ oferece, no decorrer do texto, a idéia de que existe uma farsa no ar. Duas, para ser exato. De um lado um jovem tentando se afirmar utilizado algo que não é seu. De outro, um velho procurando se afirmar sobre algo seu mas que acabou perdendo. Essas duas farsas são as únicas coisas que sustentam a existência de ambos. A farsa como um método necessário de sobrevivência.
Tradutor e professor de tradução literária, Rubens Figueiredo realiza uma escritura madura em ‘‘Barco a Seco’’. Autor de outros cinco romances (‘‘O Mistério da Samambaia Bailarina’’, ‘‘Essa Maldita Farinha’’, ‘‘A Festa do Milênio’’, ‘‘O Livro dos Lobos’’ e ‘‘As Palavras Secretas’’ – esse último agraciado com o prêmio Jabuti), ele apresenta uma literatura enevoada que lentamente desvela uma paisagem. Uma paisagem sem esperança de ser mirada e admirada. Uma paisagem carregada de elementos humanos que permanece imóvel porque não tem para onde ir. Nem por que ir.
Nesse quadro, a relação entre a realidade e o destino pode assumir a imagem de um cachorro domesticado: ‘‘Era seu animal de estimação. E, na verdade, como não ter estima por quem obedece imediatamente aos nossos gritos e se curva com presteza às nossas repreensões e ameaças? Como não ter amor por quem podemos amarrar pelo pescoço e prender numa coleira e arrastar aonde bem quisermos, à força de puxões e pancadas educativas? Alguém que podemos trancar num minúsculo banheiro durante a noite e obrigar que fique em silêncio. Como não trazer no coração uma criatura a quem podemos, caso isso nos incomode, cortar uma parte do rabo e das orelhas, injetar hormônios, castrar, secar os testículos, ou retirar o ovário ou o útero inteiro, e com toda razão nos julgamos, por isso mesmo, merecedores de elogios e de gratidão por toda a vida? Como não prezar como um verdadeiro ser humano alguém que depois de tudo isso nos adora cegamente, geme de alegria atrás da porta quando ouve nossa chave tilintar e corre contente para lamber nossos pés quando chegamos da rua?’’
Barco a Seco – De Rubens Figueiredo, Editora Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 24,50.

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