Pinacoteca incrementa agendas das duas sedes
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sábado, 14 de agosto de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 15 (AE) - Novamente com duas sedes, ao menos por alguns meses, a Pinacoteca do Estado de São Paulo está preparando uma caprichada agenda de atividades para os próximos meses. Trata-se de uma programação de amplo espectro, que tem como principal característica a preocupação em abrir espaço para eventos que tenham a arte brasileira por tema - uma forma de colocar a cultura e a pesquisa nacional em foco.
Essas exposições também cobrem um longo período histórico, mergulhando no passado colonial ou resgatando a obra de artistas contemporâneos importantes. Os eventos internacionais também não foram esquecidos, mas a idéia é não programar megaexposições que exijam elevados investimentos (algo difícil de se garantir depois da desvalorização do real e do desaquecimento econômico).
O calendário está sendo pensado tanto para o prédio original, da Avenida Tiradentes, quanto para o Pavilhão Manuel da Nóbrega, espaço cobiçado por várias insitutuições da cidade, mas que voltou aos cuidados da Pinacoteca. Para esse espaço, estão programadas as retrospectivas de Rubem Valentim e Joaquim Tenreiro.
A primeira exposição terá curadoria do artista e pesquisador Benê Fontelle, que há anos vem estudando a obra de inspiração afro-brasileira do artista baiano. A mostra de Tenreiro, sub-intitulada de "O Mestre da Madeira", também é fruto de uma pesquisa da arquiteta Janete Costa e está marcada para o mês de outubro. Na mesma ocasião, será relançado o livro "Tenreiro", editado pela Bolsa de Artes do Rio e que retraça a carreira desse português que revolucionou o mobiliário brasileiro com seus móveis de desenho elegante construídos a partir de elementos nacionais. Tenreiro deixou de lado o peso do mobiliário europeu para experimentar a variedade e a leveza da madeira brasileira, tanto no design quanto na escultura. Outro projeto para o Ibirapuera é uma mostra de Yoko Ono, mas se houver patrocínio.
Cultura popular - Mas a grande atração do projeto de eventos no Parque deverá ser a exposição que o diretor da Pinacoteca, Emanuel Araújo, planeja organizar no fim do ano para mostrar a relação entre a obra de alguns artistas e a cultura popular.
"Procuraremos mostrar como alguns artistas se valem da cultura popular para construir a própria linguagem", explica Araújo. Entre os artistas que seriam contemplados nessa mostra estariam aqueles equivocadamente tratados como naifs, como Poteiro e Djanira, ou aqueles que se apropriam do imaginário popular com uma certa erudição, como Raimundo de Oliveira. "Ele utiliza uma simplificação da figura, quase transformando a pintura numa história em quadrinhos", diz.
Segundo ele, essa iniciativa para proteger a arte popular e seus desdobramentos é vital para sua sobrevivência. "A arte erudita tem todos os elementos de defesa, os cânones, a crítica, a história da arte; a cultura popular não, ela está diretamente ligada ao cotidiano dos grupos sociais", defende.
É importante lembrar, ainda, que a programação da Pinacoteca não se restringe ao Parque. Ao contrário, a maioria das atrações deve ocorrer em sua bela sede principal, na Luz. É lá que ocorrerá a retrospectiva do artista italiano Raphael Galvez (a ser inaugurada no dia 25), pouco conhecido do público, mas considerado um dos grandes mestres da pintura paulista, tendo retratado a cidade antes da destruição provocada pela violenta industrialização, como os barquinhos ancorados num despoluído Rio Tietê.
Pratarias - Um dos grandes destaques da programação do museu este ano deverá ser a dupla exposição Prateiros e Santeiros Paulistas, que procura resgatar a arte colonial produzida no fim de mundo que era São Paulo antes do período do café, no século 19.
O primeiro núcleo é fruto do trabalho da pesquisadora Maria Helena Brancanti. "Ela desenvolveu uma pesquisa interessantíssima, que revela que mais de 500 prateiros trabalharam em São Paulo entre os séculos 16 e 19", conta Araújo. Esse dado é ainda mais impressionante quando se pensa na extrema penúria que reinava na região nesse período (às vezes até objetos quebrados entravam nos inventários).
Fazendo par com os exemplos de trabalho em prataria, o público poderá admirar uma bela coleção de santos paulistas, pesquisados e selecionados pelo arquiteto Carlos Lemos. Como São Paulo ficou extremamente isolado do restante do País, esses santos revelam como, com o passar do tempo, foi sendo criada uma arte sacra típica da região, que acabou culminando com os "paulistinhas" (imagens moldadas em barro de forma pré-industrial).
Resta ainda mencionar outros destaques da programação, como a exposição do espanhol Miquel Navarro, a mostra de esculturas monumentais francesas que vem do Rio e uma exposição paralela de esculturas brasileiras, que será exposta ao ar livre (no Jardim da Luz).


