São Paulo, 09 (AE) - A Pinacoteca do Estado abre na terça-feira a primeira exposição montada no Brasil do fotógrafo, artista plástico e escritor francês François-Marie Banier. A mostra "Viver", que conta com 148 fotografias, fotopinturas e pinturas de Banier, fica em cartaz até o dia 1º de agosto e depois segue para o Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio.
Banier está no País para a abertura da mostra. Recebeu a imprensa para um café da manhã hoje. Estava mais acelerado do que o normal. Caminhava sem sapatos de um lado para o outro procurando a melhor disposição para as suas obras. Nos ombros, a inseparával Leica M6, alemã, "apenas um equipamento, o que importa é o olhar", diz.
O que se verá na exposição é a forma que o artista encontrou, segundo suas palavras, de oferecer algo novo às pessoas, por causa de uma carência que teve na infância. "Fui motivado pela falta de amor no mundo burguês em que vivia", conta. "Fotografar, escrever, pintar e pintar as fotografias foi talvez a solução que encontrei para não me jogar pela janela diante da crueldade das pessoas."
Para o diretor da Pinacoteca, Emanoel Araújo, a fonte dos múltiplos talentos de Banier deve ser buscada em sua obra traduzida no Brasil com o título "Balthazar, Rapaz de Família". O livro, muito próximo da biografia do artista, conta a história de um menino que se defronta com o mundo dos adultos, principalmente com a brutalidade do pai, e vive uma infância marcada pelo sofrimento e pela riqueza de imaginação. "A fotografia de Banier tem o poder de mergulhar no universo íntimo dos personagens anônimos do povo ou do beautiful people do mundo", define Araújo.
O sofrimento a que se refere o diretor da Pinacota é bem identificado em muitos trechos do livro de Banier. "Meu pai bate no meu queixo com pequenos socos, os socos redobram, são cada vez mais fortes", escreve. "Minha cabeça esbarra contra a parede." E prossegue: "Sempre quis que alguém me amasse, ser mais do que uma criança a quem, de passagem, se acaricia a cabeça, mais do que um filho de substituição, mais do que um afilhado expedito", diz. "Queria pertencer."
Depois de abandonar a casa dos pais, Banier trafegou como poucos pelo jet set internacional. Só para citar algumas das personalidades clicadas por Banier e que estão na exposição montada para o Brasil: Catherine Deneuve, Vladimir Horowitz, Silvana Mangano, Henri Cartier-Bresson, Françoise Sagan, Jean-Luc Godard, Isabelle Adjani, Eric Rohmer. Há fotos feitas em janeiro no Rio e em São Paulo, na ocasião em que veio ao País escolher os museus para a sua exposição.
A primeira grande mostra de trabalhos de Banier - até então conhecido apenas como romancista, foi feita em 1991, no Centro Georges Pompidou, em Paris. Ao lembrar-se do impacto causado por essa exposição de estréia, o crítico Hector Bianciotti, de LAcadémie Française, definiu o artista como praticante da estética do instantâneo. "Essa palavra não deveria evocar a facilidade, mas um saber que não se pode aprender, que exige grande experiência de vida e sentido inato de composição", explicou.
Mas ninguém define melhor Banier do que Banier. "Pinto à beira da morte, como que forçado por outra coisa, uma pressão, uma pulsão", apresenta-se ele no catálogo de sua exposição. "Por onde começo uma tela?", pergunta-se. "Por onde começa o mundo? Pinto." Uma mancha, explica o artista, torna-se uma cidade, uma procissão, um deserto, um telhado de casa, o seio de uma mãe, uma pálpebra que se abre. O que poderia constrangê-lo - falar de uma infância conturbada, sai como desabafo. "Fui uma criança muito difícil, apanhava muito dos meus pais para mais tarde explodir."
Como a criança que conta sua história em Balthazar, Banier assume uma espécie de analfabetismo técnico, que serve de resposta a quem torcer o nariz, por exemplo, para suas fotos pintadas. "Não conheço as regras da arte de pintar, mas quem conhece as justas proporções da tristeza?"

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