São Paulo, 15 (AE) - Quem lamentou o fim da temporada em que a Pinacoteca do Estado de São Paulo tinha sob seus cuidados o Pavilhão Manuel da Nóbrega, no Parque do Ibirapuera, e que rendeu belas atrações como as exposições de Camille Claudel, Jean-Michel Basquiat, desenhos eróticos de Rodin ou a megarretrospectiva de Oscar Niemeyer, já pode comemorar: o espaço acaba de ser entregue novamente à direção da Pinacoteca e ficará sob seus cuidados pelo menos até o fim do ano.
Até lá, o belo espaço que durante décadas foi usado como a sisuda sede da Prefeitura de São Paulo servirá para uma série de mostras. A programação ainda não está completamente definida, mas alguns projetos foram delineados, como as retrospectivas de Joaquim Tenreiro e de Rubem Valentim. Os dois brasileiros, artistas de primeira linha, serão apresentados em grande estilo ao público.
É importante lembrar ainda que, além da programação da Pinacoteca, já foram estabelecidos outros compromissos para o pavilhão, como a Bienal dos 500 anos, que deverá ocupar o prédio a partir de janeiro.
Outra novidade boa é que os planos definitivos para o pavilhão projetado por Niemeyer estão sendo modificados e, em vez do museu de tecnologia infantil que a Secretaria de Estado da Cultura planejava para o local, o espaço deverá ser transformado num centro interativo de arte e cultura popular, que contemple vários aspectos da história nacional. Isso inclui desde as expressões artísticas mais tradicionais, como a pintura
a escultura e o folclore, até elementos pouco explorados por museus, como hábitos alimentares e tradições familiares.
Segundo o secretário da Cultura, Marcos Mendonça, ainda estão sendo feitos alguns ajustes no projeto e serão necessários alguns dias de pesquisa e estudo antes que ele possa anunciar a decisão final. Mas sabe-se desde já que o pavilhão não tem condições de abrigar um megaprojeto tecnológico, como por exemplo a Cité de Technologie de La Vilette, nos arredores de Paris. Além de exigir investimentos de grande vulto, uma reforma como essa acabaria por comprometer as características arquitetônicas do local.
Testes de acústica, por exemplo, mostraram que seria necessário compartimentar de forma muito intensa a área interna do pavilhão, o que tiraria todo o charme daqueles pisos amplos e enormes fachadas envidraçadas. Ironicamente, o prédio recuperaria a frieza (e provavelmenente a feiúra) burocrática que tinha na época em que ainda era sede da Prefeitura de São Paulo.
Humanização - A idéia desse novo museu mais humano e menos tecnológico - mas que também teria uma forte preocupação com a interatividade e como principal público-alvo as crianças e os jovens - partiu do diretor da Pinacoteca, Emanuel Araújo. Isso não quer dizer que ele se disponha a dirigir o novo museu. Segundo ele, seu papel se limita a coordenar as atividades da Pinacoteca até o fim do próximo ano, quando pretende abandonar a direção do museu, que agora vai exigir dedicação maior com a aquisição do novo espaço.
Essa ampliação, no entanto, não parece assustá-lo, já que existem inúmeros projetos em curso para os dois espaços. Araújo se dispõe ainda a ajudar a formatar o novo museu, com a ajuda de profissionais de várias áreas, pois um projeto desse vulto não pode ser feito sem o apoio de historiadores e educadores.
Caso a idéia do museu permaneça como está, o público poderá ter uma idéia inicial do tipo de conteúdo que se pretende explorar em novembro, com a abertura de uma mostra que explorará a relação entre as artes e as tradições populares. Para Araújo, o objetivo final seria "fazer o público pensar na própria condição de ser brasileiro, como isso tudo se criou, qual é o vetor ou os vetores de uma identidade nacional".
O visitante poderia, por exemplo, aprender a importância da cultura da mandioca para a formação da cultura nacional. Mas não de forma estática e aborrecida e sim por meio de um museu com vasto acervo iconográfico e cinematográfico, que lance mão de uma linguagem contemporânea. "Precisamos de um centro dinâmico e não de um museu de pura especulação estética", afirma.

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