Pinacoteca abre a grande mostra de Rafael Galvez
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terça-feira, 24 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 25 (AE) - A cidade de São Paulo deve muito ao pintor e escultor Rafael Galvez, morto no ano passado, aos 91 anos. Desde o antigo prédio que abriga a Prefeitura, cujas figuras decorativas ajudou a esculpir, a uma estátua de Cervantes instalada ao lado do prédio da Biblioteca Municipal, a cidade é marcada pela presença de sua obra, agora mostrada ao público pela Pinacoteca do Estado. São quase 300 trabalhos, entre pinturas, esculturas e desenhos, que cobrem todas as fases do artista paulistano, dos anos 20 aos 90.
A curadora da exposição, Vera dHorta, vem trabalhando no projeto da mostra há dois anos, mas convive com a arte de Galvez há mais de dez, acompanhando o processo de realização de muitas dessas pinturas e esculturas. Galvez, da mesma geração de Volpi, Zanini e Bonadei, deixou mais de 800 obras e, apesar do reconhecimento crítico, nunca se interessou pelo mercado, afastando-se nos anos 50 e vivendo recluso em seu ateliê, onde trabalhou em tempo integral após sua aposentadoria, em 1976. Após o afastamento da Marmoraria Maia, onde esculpia relevos e monumentos fúnebres desde 1938, nunca mais saiu de seu modesto ateliê na Barra Funda, resistindo até a morte ao assédio de marchands e colecionadores.
Um deles, Orandi Momesso, teve o privilégio de conviver com Galvez e construir um acervo considerável. Em homenagem ao amigo, Momesso acaba de lançar um livro com texto da curadora Vera dHorta e um ensaio fotográfico de Vera Albuquerque, que mostra como era seu ateliê. Próximo dos artistas que formavam o grupo Santa Helena, Galvez ganhou uma publicação de luxo da Momesso Edições de Arte, que pretende, no futuro, lançar outros livros dedicados aos artistas do segundo período modernista (Bonadei, Carmicelli, Rizotti e Emeric Marcier, entre outros).
A exposição de Rafael Galvez ocupa cinco salas da Pinacoteca. No saguão central estão duas grandes esculturas realizadas nos anos 40, quando trabalhava como assistente de Nicola Rollo na Escola de Belas-Artes. São figuras humanas de grandes dimensões, o que aproxima Galvez de sua referência maior
Michelangelo. Ele sempre aspirou à monumentalidade, mas sabiamente se adaptou à dimensão intimista de seu ateliê, dedicando seus últimos anos à pintura. Como um operário, ele pintava no horário comercial, aproveitando a luz do dia e seguindo uma rotina sem direito a nenhum luxo.
No entanto, trata-se de uma pintura requintada, feita por um homem que conhecia profundamente seu ofício, justificando o termo artista-artesão criado por seu amigo Mário de Andrade, também seu vizinho. Repudiava o gosto médio e foi um pioneiro macchiaiulo no Brasil, ou seja, um pintor que trocou o pincel pelos dedos para produzir "manchas" que desafiavam o espectador convencional. Segundo a pesquisadora Mayra Laundanna, autora de uma dissertação de mestrado sobre sua obra, os críticos de arte da época, ou seja, dos anos 40 e 50, não entendiam que as massas pastosas na pintura de Galvez podiam ser traços de união entre pintura e escultura.
Na exposição, esse gosto pela matéria pictórica é traduzido em várias paisagens dos bairros periféricos de São Paulo, que visitava em longas viagens de bonde com outros amigos pintores. Há também muitos auto-retratos, que sempre constituíram uma forma de autoconhecimento. Um dado curioso sobre os retratos de Galvez é que alguns não têm olhos, a exemplo das telas de Modigliani. A razão é explicada no verso de uma tela sua sobre o Cristo: para não ver as maldades do mundo.


